ASSINE
E jornalista e cronista

Chegou a hora de partir e voar, abrindo mão pro adeus

A vida ensina sobre as dores da despedida, de como ela pode ser couro de serpente pra renovar as vestes do bicho

Publicado em 26/09/2019 às 10h47
Atualizado em 27/09/2019 às 06h15
Despedida de Jace Theodoro. Crédito: Amarildo
Despedida de Jace Theodoro. Crédito: Amarildo

Alguns saem pra comprar cigarros e não acertam o caminho da volta pra casa. Tem aquele que, sem fumar, diz que vai ali, já volta e demora o tempo da eternidade pra retornar com o carimbo de filho pródigo. O cronista aqui é do tipo que crê nas impermanências. Como os budistas, o que parece eterno é só aparência mesmo, maquiagem que em breve vai derreter dando lugar à pele nova.

A vida ensina sobre as dores da despedida, de como ela pode ser couro de serpente pra renovar as vestes do bicho. Sou este bicho que abandonou o estado rastejante, sub-reptício, e deixou de lado a dissimulação do choro de quem parte. Eu gosto de partir e não me furto em voltar se o chamado me comove, se o novo vestido da pele vai cair bem na festa da volta. Ouroboros, o eterno retorno, a cobra, de novo ela, mordendo o próprio rabo.

Vou partir agora. Certamente algumas pontas de nostalgia serão fincadas em mim ao abrir a mão pro adeus. Mas é dorzinha que dura pouco, o tempo de reacender a velha crença de que até breve me é mais adequado. Quando se vai embora nunca voltamos pro mesmo ponto de partida, é um outro estado, um tempo diferente de quem se foi e trouxe na volta a marca da roda dos dias. Serei eu acrescido de novas histórias que me tocaram no caminho de ida.

Momento de dar a minha volta, nobre leitor. É partida de poeta sem versos, de ir comprar os cigarros da fantasia e fingir fumaça, modo de conferir teatralidade à cerimônia do adeus. A palavra, esse bicho carpinteiro com fome de me corroer se não lhe empresto o meu corpo. Palavras, companheiras de partidas de pôquer a me roubar tesouros com suas mãos fortes de royal straight flush. São elas que, ao me virar do avesso com suas jogadas, me põem mais vivo, me colocam no centro do jogo, mesmo perdedor.

Levo-as comigo pro passeio na terra do logo ali. Deixarei conchas e seixos pelo caminho para garantir que não me perca e permitir que o nobre leitor me ache pelos rastros. Não sou homem de me jogar em sumidouros. Para isso, tenho guardadas asas que me erguem no céu ou me acomodam no chão ao meu gosto e desejo. Hora de voar!

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.