Um fato acontecido no ano passado voltou às manchetes e à polêmica. Um policial militar foi condenado criminalmente por haver estapeado um frentista em 2020. Esse episódio renderia debates sobre a severidade ou leniência de nossas leis, sobre o inconveniente representado pela demora nos julgamentos e muitos outros.
Nesta mesma coluna já tratamos inúmeras vezes de como os atritos entre policiais e cidadãos, mesmo quando estritamente dentro da lei, podem refletir negativamente para as instituições e para as autoridades, que dependem da colaboração da população. Vamos nos ater, entretanto, à importância de um treinamento amplo e moderno, bem como de reciclagens periódicas.
Policiais trabalham sob pressão, o que favorece um desgaste mental. Volta e meia se veem em situações nas quais é exigido o uso da força. Por outro lado, como qualquer pessoa, trazem consigo preconceitos e vícios comportamentais que não seriam recomendáveis a nenhum profissional, mas, em particular, a um servidor público encarregado de impor a lei.
Punições podem ser inevitáveis depois de um erro ou abuso, mas muito pode ser prevenido se houver orientação e preparo prévio. Claro que algumas pessoas têm, por exemplo, um dom natural para a oratória ou a liderança, mas sempre é possível aperfeiçoar esses talentos ou suprir, ao menos em parte, a falta deles.
Da mesma forma, se a discriminação racial, por exemplo, pode ser aprendida, também pode ser desaprendida. Em outras palavras, é possível treinar o policial para que ele se torne menos discriminatório que uma pessoa média, mais senhor de si em uma situação de perigo ou diante de uma ofensa.
Um bom exemplo foi a adoção do Método Giraldi, no qual o policial não aprende apenas a atirar certeiro no alvo, mas, principalmente, quando não disparar. Em uma dessas imagens que circulam nos aplicativos de mensagens, via-se um policial militar capixaba sofrendo agressões que certamente justificariam o disparo em legítima defesa, mas ele não fez uso de sua arma e, com profissionalismo, acabou resolvendo sem o emprego da força um situação provocada por familiares de um preso, completamente descontrolados. Fez, portanto, mais do que legalmente seria exigível.
Outro ponto importante é cultivar nas corporações policiais uma superioridade mental ou psicológica que permita a esses servidores lidar com agressões verbais e ofensas com mais autocontrole do que teriam cidadãos comuns. Não é nada agradável sofrer uma abordagem e muito menos ser preso, haja ou não fundamento para isso.
Ademais, muitas dessas pessoas, com ou sem razão, vão considerar que estão sendo discriminadas ou injustiçadas. Lidar com essas situações pode ser parecido com atender pacientes em surto: é preciso não se deixar atingir, seja física, seja moralmente, manter o próprio equilíbrio e a própria sanidade, a despeito de tratarmos com pessoas fora de si mesmas.
Desenvolvendo essa capacidade em suas fileiras, as instituições evitarão o caminho doloroso e pouco eficiente de recorrer às normas criminais e disciplinares depois de cometidas as infrações. Também evitarão prestar explicações a todo tempo, por melhores que sejam. É bom para o servidor, para a instituição e, principalmente, para o cidadão.