Tenho aqui sustentado que uma retomada sustentável no processo de redução dos homicídios permitiria ao ES iniciar trabalho semelhante com relação aos roubos e outros crimes patrimoniais mais importantes. Essa crença parte de algumas premissas.
Não se pode esmorecer no enfrentamento aos assassinatos, sob pena de comprometer anos de trabalho de bem feito. É preciso consolidar os avanços e isso implica um retorno estável à trajetória descendente das estatísticas de morte violenta. Não podemos perder esse foco.
Entretanto, em se percebendo que os números voltaram a diminuir sistematicamente, é previsível que as polícias fiquem cada vez menos assoberbadas e possam dedicar uma crescente atenção a outras violações que, embora menos graves, incomodam por demais o cidadão, até mesmo pela frequência com que ocorrem e pelo trauma gerado. Aqui estamos falando principalmente do roubo, do crime patrimonial cometido com violência ou grave ameaça contra a vítima.
Certos crimes decrescem diante do policiamento preventivo, mas outros são mais difíceis de evitar, porque a PM não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Entretanto, alguns deles são de investigação cada vez mais fácil: câmeras públicas e privadas estão se espalhando até em locais ermos. Também não é nada fácil evitar deixar impressões digitais e outros elementos que permitem às perícias identificar os autores. Tais crimes somente não são punidos por falta de recursos, principalmente humanos.
Mais dois elementos são importantíssimos. A maioria dos crimes patrimoniais é cometida por um pequeno número de meliantes mais ativos. Assim, não é necessário prender muitos infratores para obter uma substancial melhoria no quadro de segurança patrimonial, sem sequer pressionar a superlotação carcerária. Pelo mesmo motivo, não é preciso solucionar todos os crimes por um por um: com alguns poucos inquéritos bem sucedidos, é possível desbaratar quadrilhas inteiras.
Por fim, lembremos que, ao contrário do tráfico de drogas, os crimes patrimoniais não sofrem uma “pressão de demanda”, isto é, não existem pessoas fazendo fila desejando ser assaltadas, enquanto que os usuários de drogas estão dispostos a pagar quanto lhes for exigido, ir comprar essas substâncias onde estiverem disponíveis.
Linhares, por exemplo, ainda vem sofrendo com crimes letais intencionais e, ao mesmo tempo, com roubos na cidade ou no campo. Com um “empurrãozinho”, os dois aspectos podem ser encaminhados para uma solução – não imediata, mas paulatina, permanente, duradoura. Por isso, nosso otimismo realista.