Toda vez que esta coluna trata do tema das drogas, chovem comentários desairosos sobre este articulista, frequentemente em linguagem de baixo calão. Tento não ligar para isso. Muitas pessoas estão apavoradas com a acelerada difusão do consumo de substâncias psicoativas, sendo que de vez em quando surge uma nova droga.
Outros já perderam entes queridos para o vício, sofreram ou estão sofrendo demais. Esses que me ofendem, mesmo sendo eu um aliado nessa luta, tomam como ameaça as luzes racionais que tentamos colocar sobre o problema. A maioria nem lê a coluna, começa a xingar só com o título. Têm medo da doença, porém mais ainda do tratamento.
É mais ou menos esse mesmo grupo que fica enfurecido quando o STF ou mesmo o STJ põem um freio na estratégia estúpida de subir o morro atirando, exigem maior critério nas abordagens policiais, menor número de vítimas da ação policial etc. Como dissemos nos domingos passados, se o STF estabelecer que não se considera tráfico quando a quantidade de substância apreendida for inferior a um certo limite, estará fazendo um grande favor a quem, sinceramente e com conhecimento de causa, quer combater esse câncer na saúde pública que é o consumo abusivo de substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas.
Deus perdoa essa multidão assustada que exige mais prisões e maiores penas para os traficantes, ou mesmo a pena de morte, como se eles não se matassem entre si muito mais rápido do que o Estado é capaz de fazer. Afinal, eles padecem muito e ainda por cima estão assombrados por fantasmas que inventaram para eles. São manipulados por interesses inconfessáveis.
É, todavia, preciso reconhecer que Judiciário não seria o melhor lugar para esse debate. O problema é que discussões sérias e bem intencionadas nunca ganham corpo no Congresso e, depois de mais de um século de fracasso na repressão criminal, é inevitável que o STF acabe sendo empurrado para esse papel.
Ora, podemos falar mal o quanto quisermos dos políticos, mas os burros ou desinformados não se elegem. Como diria Erving Goffman, se poucos querem participar de uma conversa respeitosa e de alto nível é porque sabem que acabarão precisando debater a necessidade de um processo, ainda que lento e gradual, de descriminalização do tráfico (o que não é sinônimo de legalização), mas esse é um assunto que tira votos.
Pior ainda são aqueles que ganham votos ou dinheiro iludindo e manipulando a população, inventando pecados e ameaças irreais, prometendo soluções fáceis e risivelmente ineficazes.
Não, não há solução rápida, fácil, barata ou garantida para o problema das drogas. Mas há aquelas demoradas, difíceis, um tanto caras e de eficácia prática suficiente para que sejam ao menos levadas em consideração. O desafio é enorme, mas não impossível.
Só que não aparece espaço para saídas praticáveis porque estamos ensurdecidos pelos gritos de quem ganha indiretamente com o sofrimento alheio. Esses sabem o que fazem e Deus não perdoa.
Quem se torna dependente químico vai ao inferno e nem sempre volta. A família vai junto e frequentemente também não há retorno para ela. Entretanto, uma pessoa que foi e voltou me contou um segredo. Lá há traficantes, assassinos e ladrões, mas o maior espaço está ocupado pelos omissos e pelos cínicos.