A pandemia tem sido cruel com todos, mas os prejuízos que vem causando não foram distribuídos igualitariamente. Enquanto algumas pessoas nem sequer parecem ter sido contaminadas e outras sofreram sintomas relativamente leves, certos grupos de risco mais frequentemente foram internados ou mesmo vieram a óbito. Da mesma forma, é muito provável que o ônus de tomar conta de crianças sem presença na escola tenha recaído preferencialmente sobre mulheres, prejudicando-as profissionalmente.
Assim como os profissionais da saúde atenderam ao clamor da população e ao dever de seus ofícios, granjeando o reconhecimento da sociedade, é o momento de muitos outros contribuírem para um cuidadoso retorno à normalidade. Não que seja possível simplesmente decretar a Covid como debelada, mas no sentido de manter funcionando o que é essencial.
Em 2020, por todo o Brasil, escolas privadas tiveram os recursos, a competência e a necessidade econômica de manter aulas telepresenciais com a qualidade mais elevada possível, além de aulas presenciais alternadas mediante um protocolo de segurança sanitária, materiais e atividades diferenciadas.
Enquanto isso, os alunos da rede pública tiveram muito, mas muito mais perdas no seu aprendizado. Infelizmente, isso não é tudo. Longos períodos sem a rotina de ir para a escola, de conviver com os colegas e professores, e mesmo uma grande inatividade em casa, tudo isso causará crescente dispersão e redução do pertencimento, enfraquecimento das relações sociais e pedagógicas que, mais do que o quadro negro, constituem a estrutura invisível do ambiente escolar.
Lastimavelmente, o fosso abissal entre os alunos da rede privada e da pública não apenas se aprofunda, como esse processo se acelera a cada dia. Políticas de aprovação automática e de cotas podem facilitar o ingresso nas universidades, mas não compensarão as perdas no aprendizado e não removerão os obstáculos no prosseguimento dos estudos.
Por outro lado, é alarmante o risco de aumento na evasão escolar. Está mais que estabelecida a relação entre o ingresso no crime e o abandono dos estudos, que se dá principalmente na passagem do ensino fundamental 1 para o fundamental 2. Quanto mais demorarmos a retomar ao menos aulas presenciais alternadas, é muito provável que aconteça uma evasão escolar muito superior à média, já por si trágica, até porque o reagrupamento e o retorno total serão ainda mais lentos.
Bem, se isso conforta, a sociedade não precisa se preocupar. Se não tomarmos conta de nossas crianças, o traficante toma.