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É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

Envolvidos em chacina de Vitória têm que ser energicamente punidos

Identificar os executores não basta. A quantidade de vítimas, a frieza e crueldade do crime e sua motivação exigem que a própria organização criminosa por trás dele passe a enfrentar “expedições punitivas”

Publicado em 04/10/2020 às 05h00
Atualizado em 04/10/2020 às 05h02
Quatro homens foram assassinados na Ilha do Américo, em Santo Antônio
Chacina na Ilha do Américo, em Vitória: quatro jovens são executados. Crédito: Fernando Madeira

Em 14 de fevereiro de 1929, em Chicago, homens disfarçados de policiais simularam uma batida no galpão da quadrilha de traficantes de bebidas lideradas por George “Bugs” Moran, de ascendência irlandesa, que era o alvo principal, mas estava atrasado e escapou. Porém, sete homens foram executados a sangue frio. Era Dia de São Valentim, que nos EUA é a o Dia dos Namorados.

O suspeito óbvio era Alphonse Gabriel “Scarface” Capone, rival de origem italiana que, na data, estava marcando espalhafatosamente sua presença a centenas de quilômetros dali. Contudo, ninguém jamais foi preso por este crime e alguém pode imaginar que essa selvageria saiu impune, mas não foi bem assim. Até então, a proibição ou Lei Seca não tinha a menor popularidade; era fácil comercializar álcool junto com a exploração da prostituição, ganhando milhões sem risco de ir para a cadeia, mas esse crime mudou tudo. Ele escandalizou todo o país, tornou-se uma questão federal e o povo saiu de sua letargia.

O FBI só tomaria esse nome em 1935, mas o seu predecessor, o Bureau of Investigation (BOI), criado inicialmente com 12 agentes sem porte de armas, já era dirigido pelo lendário J. Edgar Hoover. Todo mundo que assistiu ao filme “Os Intocáveis” sabe que o agente Eliott Ness iniciou uma implacável perseguição ao mafioso Al Capone, que terminou atrás das grades. Só que não.

Ness teve uma atuação marcada por trapalhadas e foi um contador que pacientemente analisou toneladas de documentos apreendidos até encontrar provas de que o criminoso havia sonegado impostos. Condenado a 11 anos de prisão por um crime tão banal, ele morreu na cadeia, a Lei Seca foi revogada, o FBI cresceu e evoluiu, como sabemos, e nunca mais ninguém subestimou a importância do crime organizado.

Acabamos de assistir a algo parecido no ES: seis vítimas, quatro fatais. Parece que a polícia já tem suspeitos da chacina da Ilha. Ótimo, precisam ser todos energicamente punidos, mas, neste caso, identificar os executores não basta. A quantidade de vítimas, a frieza e crueldade do crime, sua motivação e, como não bastasse, o fato de atingir pessoas sem sequer ligação com o tráfico exigem que a própria organização criminosa por trás dele passe a enfrentar “expedições punitivas”, como o Exército dos EUA gostava de chamar, até o seu completo aniquilamento, ou a sociedade não terá tranquilidade e uma guerra do tráfico pode surgir.

A Sesp (Secretaria de Segurança Pública) tem os meios materiais e os profissionais necessários, sabe como fazer e está com a faca nos dentes. Pra cima deles!

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