Dirijo há 50 anos, mas, atualmente, meu lema é o da música “Tocando em frente”, do Almir Sater e Renato Teixeira: “Ando devagar porque já tive pressa, E levo esse sorriso porque já chorei demais”. Pois é, o tempo e a experiência fazem com que a gente reduza a velocidade, tanto no trânsito quanto na vida.
Atualmente, tenho receio de dirigir, de sair de casa no carro, de enfrentar o trânsito violento, de encontrar motoristas que dirigem alucinadamente, de topar com uma horda de motociclistas que querem passar de qualquer maneira, de pedestres que atravessam a rua em qualquer lugar. Viver é perigoso, nos disse Guimarães Rosa, e o trânsito brasileiro é a prova disso. Estamos entre os três países que mais matam no trânsito, atrás só de China e Índia, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Urge que os órgãos responsáveis pelo trânsito intensifiquem as campanhas de conscientização e a fiscalização das rodovias, visto que as férias se aproximam e milhares de pessoas vão transitar pelas nossas precárias estradas. Há poucos dias, fui à região noroeste do Estado, até Alto Rio Novo, na divisa com Minas Gerais. Fiquei impressionado com o trânsito pesado nas rodovias, tanto as federais quanto as estaduais, desde Vitória, e constatei que o trecho entre João Neiva e Colatina é o mesmo de 50 anos atrás, mais remendado, bem como o de Colatina a Pancas.
No entanto, o trânsito é muito mais pesado, com carretas enormes transportando pedras ou eucaliptos, e muito motorista apressado em seus carros potentes, velozes e furiosos. No passado, percorria essas estradas com um fusquinha 77, meu primeiro carro, e quase não havia ou via acidentes. Era impossível correr muito. Hoje, os fabricantes de carro anunciam que um automóvel fabricado por eles pode ir de 1 a 100 km em 3 segundos, o que é temeroso. Dia desses, estacionei, olhei pelo retrovisor, pista liberada. Quando abri a porta para descer, um motorista alucinado quase me atropelou e ainda me xingou: “Quer morrer, véio?”
Vou passar o final do ano sem carro e sem poder dirigir, pois um motorista de ônibus do Transcol me bateu na traseira, quando parei no sinal para que pedestres atravessassem a pista, na faixa que lhes é devida. Eu e eles estávamos corretos, mas o motorista do ônibus, em alta velocidade, não conseguiu frear. E ainda fui xingado por um motoqueiro maluco, enquanto conversava com o motorista sobre o acidente.
A Terceira Ponte virou pista de desafio de velocidade. Motociclistas, agora com faixa exclusiva, à direita, invadem as outras faixas, para chegarem, velozmente, a seus destinos com a maior brevidade possível. Da mesma forma, motoristas de automóveis infratores invadem a pista destinada a ônibus, motocicletas e táxis, às vezes, provocando acidentes fatais, como o que jogou lá embaixo um pai de família trabalhador. É a guerra do trânsito, cada vez mais acirrada, onde a violência humana chega ao mais alto grau de insanidade e de bestialismo.
E não apenas o ser humano é o responsável por tanta morte e sofrimento. As más condições das estradas como pistas estreitas e mal sinalizadas, buracos e panelas, ausência de acostamento e, principalmente, a falta de educação no trânsito. Urge que a disciplina “Educação no Trânsito” seja implementada nas escolas de Ensino Fundamental ou Médio, quando o jovem estiver próximo de obter sua primeira habilitação.
Assim como aprendemos a usar o cinto de segurança, as cadeiras para crianças no banco traseiro, precisamos nos educar para diminuir a velocidade e obedecer, rigorosamente, às leis de trânsito. Ou não chegaremos ao nosso destino, que ninguém deseja que seja o cemitério.