Depois de longa estiagem - em alguns Estados foram quatro meses -, chegou a primavera, a estação mais esperada do ano, com as chuvas que antecedem o verão. Florescem os ipês e as acácias, a natureza em festa renasce, após as queimadas do verão amazônico e pantaneiro. Seria bom que a gente também fosse assim, como nos disse em versos clássicos a saudosa Cecília Meireles, nossa poeta maior: "Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”.
Seria bom também se mantivéssemos a inocência da infância, quando cantávamos, a plenos pulmões, as canções da primavera e celebrávamos o dia da árvore. Havia um culto à natureza e a literatura é pródiga em poemas que recitávamos ou nas cantigas que entoávamos com ardor juvenil.
Quem é idoso, como eu, há de se lembrar de canções como estas: “Nossas matas de verde-esmeralda/Já se cobrem de novas capelas/Dos seus troncos vicejam libertas/Meigas folhas de tranças singelas;/São os lindos vergéis da natura/ onde vemos belezas de palmas;/São riquezas da Pátria adorada/ Que de encanto nos enchem as almas./ Primavera festiva e garrida/ Que engalana as frondosas florestas/ Recebei nossas palmas ardentes/ Recebei nossos risos e festas”.
Ou daquela: “Desperta no bosque, gentil primavera/Com ela chegou o canto/ gorjeio dos sabiás.../trá-lá-lá.../Com lindos trinados,/suaves e belos,/gentis vão os passarinhos, saudando a primavera.../trá-lá-lá...”.
Pode ser que seja nostalgia minha ou achaques de velhice, mas acho que sei onde perdemos o bonde e a esperança. Parece que perdemos o lirismo e a crença de que a sociedade poderia tornar o cidadão melhor, quando deixamos de cultivar a música e a poesia na escola. A ditadura militar, aos poucos ressuscitada pelos saudosistas da extrema direita no poder, tomou como de sua propriedade o culto aos símbolos nacionais, dos quais a bandeira era a mais representativa, e o patriotismo como lema.
O “Brasil, ame-o ou deixe-o”, dos anos 1970, deu lugar ao “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” dos dias atuais. E tanto lá como cá, não havia e não há, nenhuma preocupação com o meio ambiente e os direitos humanos. O desenvolvimentismo a qualquer custo criou a Transamazônica, quando se iniciou a real destruição da Floresta Amazônica, a Usina de Itaipu, que destruiu os Saltos das Sete Quedas, as usinas nucleares fracassadas de Angra dos Reis e tantos outros projetos faraônicos que nada respeitaram o equilíbrio ecológico, incluindo as usinas da CST e da Vale em nossa capital. A voz rouca e solitária de Augusto Ruschi ainda ecoa em nossas memórias.
A história se repete como farsa e o capitão no poder é uma caricatura dos generais do passado, mais ignorante e despreparado. O mito dos seus asseclas é um minto, conforme seu discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU. Tudo o que disse em relação ao meio ambiente e à sua ação na epidemia são falácias.
Negou a destruição das nossas florestas e do Pantanal, reafirmou o apoio ao agronegócio, o principal responsável pela destruição dos nossos biomas. Culpou índios e caboclos pelos incêndios, inveridicamente. Ou seja, mentiu como sempre, mas ninguém do mundo acreditou, nem os 70% dos brasileiros que não o apoiam. Vade retro!