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Coronavírus

Pandemia: há uma luz no fim do túnel, mas ainda está distante

Não é só a pandemia que assusta. Nunca antes na história deste país tivemos tantos assaltos, tanto desmatamento, tanta violência doméstica, tantos desempregados, tantas crianças e jovens fora da escola

Públicado em 

20 jul 2020 às 05:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

Praia da Sereia, em Vila Velha, segue com banhistas em meio à pandemia
Praia da Sereia, em Vila Velha: muitos capixabas não estão respeitando o isolamento social Crédito: Ricardo Medeiros
Talvez estejamos saindo de um período terrível de mortes, de confinamento, de trevas. Parece que um período melhor se avizinha, ainda que esteja longe e venha lentamente. Estamos no pico dessa doença terrível, que tantas vidas ceifam em nosso país, e ainda levará muitas mais, com ou sem cloroquina.
Diferentemente de outros países da Ásia e da Europa, que chegaram ao ápice da doença em dois meses e, depois, a curva declinou, em virtude de confinamento social realmente feito, aqui, no Brasil, nunca conseguimos isolar, de fato, as pessoas, até por uma questão social. Há muita gente vivendo nas ruas ou habitando moradias precárias, o vírus encontrou abrigo fácil entre elas e se disseminou facilmente em todas as classes sociais.
De início, o temor era maior entre os idosos. Hoje, morrem pessoas jovens, saudáveis, professores de Educação Física, crianças e adolescentes. É um vírus perigoso, traiçoeiro, pois ninguém sabe quem será o alvo escolhido.
Breve, estaremos em agosto, mês considerado terrível por muitas pessoas, pois é recorrente em trazer más notícias, rivalizando com abril, “o pior dos meses”, segundo T. S. Elliot: “Abril é o mais cruel dos meses, germina lilases da terra morta, mistura memória e desejo, aviva agônicas raízes com a chuva da primavera”.
Parece que o abril no Hemisfério Norte seria o nosso agosto aqui, pois em setembro começa para nós a primavera e chegam as chuvas tão providenciais, após a estiagem e a secura de agosto. Quem vive no Centro-Oeste sabe o que estou falando, pois aqui as condições são mais brandas. Mas não estou falando do tempo meteorológico, e nem Elliot tratava disso em seu poema tão conhecido.
Naquela época, a Europa saía da I Guerra Mundial, com todos os seus horrores, e da epidemia da gripe espanhola, que, por dois anos, devastou o mundo. A peste em que vivemos, agora, é semelhante àquela, talvez até seja uma mutação daquele vírus terrível, e a devastação só não é maior porque temos muito mais recursos para enfrentar essa doença do que há cem anos. Antibióticos, UTIs, respiradores, testes, além de o conhecimento e a informação serem muito mais avançados no que no início do século XX.
Mandetta, o único Ministro da Saúde que sabia o que dizia, nos falou, em sua primeira entrevista, que essa epidemia só começaria a declinar, verdadeiramente, em setembro, ou seja, seis meses após as primeiras mortes. Todos se assustaram, principalmente o presidente cloroquina, que o defenestrou por dizer a verdade.
Nos tempos em que vivemos, a verdade é proibida e leva à fogueira, como nos tempos de Giordano Bruno. Os Torquemadas estão por toda parte e os tribunais do Santo Ofício estão disseminados no poder e nas redes sociais. Portanto, caros leitores, esperemos a primavera. Até lá, sepultemos os mortos, choremos silenciosamente nossas perdas e nos resguardemos, pois não é só o vírus que nos espreita.
Nunca antes na história deste país tivemos tantos assaltos, tanto desmatamento, tanta violência doméstica, tantos desempregados, tantas crianças e jovens fora da escola. Há luz ao fim do túnel, mas ainda está distante. Portanto, sigamos o conselho bíblico de Mateus 26:41, “Vigiai e Orai”. É o que podemos fazer, por ora.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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