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Crônica

Outubro, mês dos livros

Mesmo na era digital, o livro segue essencial para o conhecimento, a imaginação e a construção de uma sociedade mais crítica

Publicado em 20 de Outubro de 2025 às 03:00

Públicado em 

20 out 2025 às 03:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro Francisco Aurelio Ribeiro

Em outubro, comemoram-se várias datas em relação ao livro e à leitura: dia doze, é o dia da leitura, dia 13, o do escritor e de 23 a 29, a Semana do Livro e da Biblioteca. Monteiro Lobato já nos disse, há alguns anos, que “um país se faz com homens e livros”. Permitiria acrescentar ao aforismo lobateano a palavra “leitura”. Os livros perdem a importância de existir quando não são lidos. É para isso que foram feitos, para a leitura. A leitura é o momento especial em que se completa o triângulo da relação entre o texto, o seu produtor e o receptor da obra.

Já houve momentos na história em que se valorizava, sobremaneira, a figura do autor, como no Romantismo ou no Parnasianismo. O escritor era mitificado, endeusado e daí se punha como um “alienígena”, distante das massas e do mundo, curtindo as suas imensas dores e raras alegrias, em tudo diversas dos sentidos pelos comuns mortais. Alguns tornaram-se populares, como Casimiro de Abreu, Castro Alves, Olavo Bilac e Augusto dos Anjos, por estarem mais ligados aos sentimentos coletivos e por não se distanciarem dos anseios sociais.

A leitura ajuda a compreender as estruturas gramaticais e a melhorar a escrita (Imagem: Ground Picture | Shutterstock)
Ler é mais que decifrar palavras — é abrir portas para o pensamento, a sensibilidade e a transformação do mundo Crédito: Ground Picture | Shutterstock

Apesar de vivermos a era da informática, da tecnologia e da “inteligência artificial”, o mundo atual não dispensou a figura e o papel do livro e do texto escrito, em geral, como instrumento de informação, de educação e de lazer. Nos países onde há o maior índice de uso da informática por habitantes, os escandinavos, Canadá e Japão, também há um alto índice de consumo de livros por habitante, em suas diferentes plataformas. Ou seja, é equivocada a ideia de que o computador eliminou a leitura de livros, jornais e revistas, assim como a televisão não acabou com o cinema e este com o teatro.

O que tem ocorrido nos países mais adiantados do mundo é o controle do uso de smartfones e de redes sociais por crianças e jovens, em contexto escolar, sem a supervisão de professores. A sedução das telinhas é muito maior do que a vontade humana e daí o perigo em seu uso descontrolado por mentes em formação. A proibição do uso de celular nas escolas brasileiras já está repercutindo nos hábitos dos estudantes, que têm dedicado mais tempo às leituras e à interação com os colegas, sem os fascínios das telinhas.

Antônio Candido, em artigo precioso, “Direitos Humanos e Literatura”, defende o ponto de vista de que, entre os direitos indispensáveis ao ser humano, além dos direitos à saúde, casa, emprego, comida, está o de consumo de Arte e, dentre elas, o de Literatura. Não se pode imaginar uma sociedade desenvolvida que não ame seus poetas, seus romancistas, seus teatrólogos. O centenário de Drummond, de Machado de Assis e de Guimarães Rosa, comemorados festivamente, há algum tempo, e toda a homenagem que receberam, tanto na mídia quanto em todos os rincões do Brasil, revelam o apreço que os brasileiros têm por seu “poeta maior” e por seus principais prosadores. Drummond, João Cabral, Ferreira Gullar, Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa, Marly de Oliveira, Adélia Prado, só ficando no time dos poetas, devem ser tão amados por nós brasileiros como os nossos maiores ídolos no esporte ou na música.

Cabe à escola, aos educadores e aos pais a difícil missão de envolver crianças e jovens na descoberta do prazer da leitura, tarefa ainda maior, quando se tem de superar deficiências econômico-sociais, desníveis históricos de formação, para criar, em cada escola, um espaço democrático de leitura. A maioria das escolas brasileiras não possui bibliotecas ou salas de leitura, bem como os bairros e os municípios onde se inserem. Ler para se informar, para saber, para se educar, mas, também, ler por prazer, sem cobrança, pelo lúdico, pela alegria que as histórias nos dão, desde que nascemos e as ouvimos, até o momento em que, sozinhos, podemos escolher o nosso texto de prazer. Daí a importância de se ter espaços de leitura nas escolas ou nos locais onde as pessoas moram.

Nós, escritores, sempre recebemos convites para ir a escolas, participar de Feiras de Livros e conversar com alunos. É com grande prazer que fazemos isso e algumas escolas nos presenteiam com flores, placas, canetas. Agradecemos, emocionados, mas o de que o autor mais gosta é que seu livro seja lido, discutido, trabalhado em classe pelo professor e se torne motivo para outras leituras e manifestações artísticas dos alunos. Há escolas que fazem isso muito bem, já que professores, alunos, coordenação, direção, estão todos envolvidos no processo. Outras se limitam a convidar o autor, sem que o aluno saiba quem ele é ou nunca tenha lido nada desse autor.

Se não há leitura prévia, não há o que conversar. A melhor conversa do escritor com o seu leitor é o seu texto, aquilo que ele escreve. Quando criança ou jovem, adorava ler as obras de Monteiro Lobato, Júlio Verne, Herman Hesse, Clarice Lispector, sem os conhecer, pessoalmente. Mas se tornaram grandes amigos meus por tudo que escreveram e pelo que contribuíram para a minha formação como pessoa e como cidadão. Somente leitores críticos podem mudar o mundo, pela leitura que dele fazem, com a sua prática consciente e cidadã. E, no Brasil, esse é um grande desafio.

Francisco Aurelio Ribeiro

Francisco Aurelio Ribeiro Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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