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É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades. Escreve quinzenalmente às segundas

Lições das Olimpíadas: sucesso em Tóquio não é mérito do Brasil

De modo geral, nos países onde educação é prioridade, os esportes se desenvolvem nas escolas, em pistas, quadras e estádios, desde o ensino fundamental até o superior. Atletas brasileiros são heróis de si mesmos e não de uma causa nacional

Publicado em 16/08/2021 às 02h00
Ginástica
Rebeca Andrade foi prata na ginástica, a primeira medalha feminina na história olímpica da modalidade. Crédito: Ricardo Bufolini/COB

Acompanho a participação do Brasil nas Olimpíadas desde 1968, no México, embora nunca tenha sido atleta de nada. Esporte não é a minha praia, embora a praia seja sempre o lugar onde pratico algum esporte, caminhar e nadar. O Brasil é um dos maiores países do mundo e um dos mais populosos, dentre os mais de duzentos que participam dos jogos olímpicos de verão, mas nunca foi uma potência olímpica.

Desde 1920, em Antuérpia, na Bélgica, quando o Brasil compareceu com 22 atletas, todos homens, e ganhou três medalhas, todas no tiro esportivo, até a última, em Tóquio, com 304 atletas e 21 medalhas, o Brasil nunca se firmou como uma grande potência olímpica. Nunca esteve entre as dez maiores e, nestes cem anos de participação, obteve, ao todo, 150 medalhas, sendo 37 de ouro, 42 de prata e 71 de bronze.

Esporte está intimamente associado com educação. De modo geral, nos países onde educação é prioridade, os esportes se desenvolvem nas escolas, em pistas, quadras e estádios, desde o ensino fundamental até o superior. Estados Unidos, China, Rússia, Grã-Bretanha, França, Holanda, Canadá, Austrália, Coreia do Sul e, por algum tempo, Cuba e Argentina, são países onde o binômio educação-esportes se desenvolvem em sintonia. No Brasil, não. Os esportes que mais deram medalhas ao Brasil, iatismo, judô, voleibol e atletismo, não são praticados em escolas ou o são, modestamente.

Atletas brasileiros são heróis de si mesmos, e não de uma causa nacional. Isaquias Queiroz e Rebeca Andrade, a Raíssa do skate, o Ítalo do surfe, o Conceição do boxe e outros que não chegaram ao ouro ou a uma medalha, mas quase, como o Romani, são vencedores por mérito próprio.

Quase todos são exemplos de superação, trazem histórias de determinação, custeiam a carreira do próprio bolso ou com a ajuda de familiares e de patrocinadores próximos, pois, no Brasil, não há um sistema que efetivamente contribua para a massificação da prática esportiva, uma detecção sistemática de novos talentos e nem estrutura e investimentos para treinamento em larga escala.

Lembro-me de minhas aulas de educação física na escola: o professor, geralmente fora de forma, mandava os alunos correrem atrás de uma bola, com um apito na boca, e mal participava do que ocorria. A minha sorte, ou azar, é que eu era tão perna de pau, que nenhum lado me queria. Assim, ficava no banco, assistindo ao jogo e torcendo pros colegas. É o que faço até hoje, torcer. Estudei em escola pública e privada e nunca participei, efetivamente, de nenhuma prática esportiva. Também não vi nenhum atleta se formar nas escolas em que atuei como professor, por mais de 40 anos.

Claro que me emociono quando vencedores sobem ao pódio, a bandeira é hasteada e o hino nacional tocado, mas não vejo ali o mérito de um país, e tão somente o esforço e o valor individual consagrados naquele ato simbólico. Ademar Ferreira da Silva, ouro no salto triplo em 1952 e 56, é o primeiro desses heróis de que me lembro, pois seu salto era repetido no Canal 100, antes dos filmes que víamos, na década de 1960, bem como os jogos do basquetebol masculino, bronze em 1948 e o time do Oscar, nunca medalhista.

Os esportes coletivos, no Brasil, estão em queda, incluindo o futebol. Marta e colegas pararam diante do Canadá, que ficou com o ouro. Fim da era Marta-Formiga-Cristiane. O vôlei fracassou quase por inteiro e o judô, parcialmente. O ouro no futebol masculino foi mais uma eventualidade, pois as partidas contra o Egito, o México e a final contra a Espanha mostraram que nossa seleção era bem ruinzinha. No pódio, os jogadores ainda tiveram a deselegância de não vestir o casaco do uniforme, para não exibir a marca do patrocinador do COI, por orientação da CBF. Politicagem no esporte sempre dá ruim, já sabemos.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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