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É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades. Escreve quinzenalmente às segundas

Inverno frio e seco: tempo de cuidados com a saúde também do meio ambiente

Desmatamento da Amazônia Legal, no primeiro semestre de 2021, é a maior em seis anos, e equivale a mais de três mil quilômetros quadrados

Publicado em 19/07/2021 às 02h00
Queimada na Amazônia no município de Novo Airão
Queimada na Amazônia no município de Novo Airão, em 2020. Crédito: Folhapress

Estamos vivendo um inverno frio e seco em nosso país, e é tempo de redobrar os cuidados com a saúde. A epidemia está recrudescendo, mas não acabou. A vacinação anda devagar, muitos ignorantes não se vacinam, seguindo o exemplo do Idiota-Mor da Res Pública. Como se não bastasse, as "ites" atacam: rinite, sinusite, encefalite, amigdalite e toda a seleção servo-croata junta.

Além do cuidado com a saúde corporal, é hora de se preocupar ainda mais com a saúde do meio ambiente. O tempo frio e seco, a estiagem prolongada em muitas regiões do país, sobretudo na centro-oeste, e a devastação das florestas amazônicas, do que restou da Mata Atlântica, do Pantanal, são catástrofes prenunciadas desde a posse do ex-ministro do Desmatamento, o Sales Passa Boiada.

Segundo o jornal O Globo, a área de desmatamento da Amazônia Legal, no primeiro semestre de 2021, é a maior em seis anos, e equivale a mais de três mil quilômetros quadrados. Além do desmatamento, uma grande área da Floresta Amazônica está sob risco de queimadas, tanto nas áreas totalmente desmatadas como naquelas que estão em degradação ambiental, pela exploração da madeira, pelas atividades ilegais de mineração e pelas queimadas.

Conforme os pesquisadores, as áreas desmatadas e ainda não queimadas desde 2019 e uma seca intensa provocada pelo fenômeno La Niña, com o aquecimento das águas do Pacífico, indicam atenção especial no combate ao fogo, o que já está ocorrendo no Pantanal e no Parque das Emas, em Goiás. Com o fim da estação chuvosa, na Amazônia, estão em grande risco o noroeste do Mato Grosso, a maior parte de Rondônia, o leste do Acre e um longo trecho da rodovia Transamazônica, localizada em grande parte no Pará.

Desde os tempos coloniais, existe a prática de queimar as plantações, para ‘limpar o terreno’. E isso inclui as florestas, após a derrubada das grandes árvores. A queimada é a última etapa do desmatamento, considerada a forma mais barata e rápida de se preparar a terra para as pastagens do gado ou o cultivo de plantações. Há dois anos, estive no Jalapão e vi o cerrado, dentro do Parque Estadual, sendo queimado e os bois em cima, mesmo antes da fumaça abaixar. Pretendia ir a Bonito, mas nem sei se as belezas naturais tão apreciadas persistirão quando o turismo voltar.

E isso não é de hoje. Vejam como Rubem Braga descreve a estrada que percorreu entre Palha, hoje Montanha, e Comercinho, atual Mucurici, em janeiro de 1954. Naquela época, as árvores centenárias da Floresta Atlântica estavam sendo cortadas, a mata queimada, numa sanha que só o bicho homem é capaz de provocar:

“Se eu fosse mesmo fazer um guia turístico do Espírito Santo (já nem sei que tipo de livro vou escrever) eu teria de aconselhar os senhores turistas que viajam de Palha para Comercinho a levar no carro um machado e se possível um guindaste. A estrada não é toda má, mas é tão nova como as duas localidades que está ligando, e foi aberta em plena mata. Para alargá-la um pouco, os trabalhadores costumam pôr fogo na floresta, pois a derrubada só a machado seria excessivamente penosa. Nossa viagem ao anoitecer é perigosa, porque de vez em quando uma grande árvore tomba na estrada. Tivemos sorte de só encontrar galhos fáceis de retirar do caminho e viajamos todo o tempo na expectativa de esbarrar com um grande tronco atravessado que nos obrigasse a voltar. Tem uma beleza bárbara, esse caminho que seguimos no seio da mata, entre colunas de fogo”.

Essa ‘beleza bárbara’, como escreveu o genial cronista capixaba, não pode ser vista, hoje, como civilização. É barbárie, mesmo!

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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