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Crônica

Fazer setenta anos

Fazer setenta anos é ter sobrevivido aos acidentes, aos planos econômicos, às doenças, às fatalidades, ao desamor, à desilusão, à descrença e, sobretudo, ter a certeza de que o mundo é para ser vivido aqui e agora, e não mais à frente

Publicado em 25 de Agosto de 2025 às 04:00

Públicado em 

25 ago 2025 às 04:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

Há alguns anos atrás, li uma crônica de Afonso Romano Sant’Anna, de saudosa memória, cujo título era “Fazer trinta anos”. Guardei-a durante algum tempo, mas o que me lembro dela é que, aos trinta anos, a pessoa deveria estar preparada para entrar na sociedade, no mercado de trabalho, após ter concluído seus cursos de graduação e de pós-graduação, enfim, produzir.
Segundo o mesmo texto, até os trinta anos, a sociedade investe no indivíduo. A partir daí, espera-se dele o retorno do investimento. Parece que esse prazo foi dilatado, pois até chupeta os humanos de trinta anos voltaram a chupar, para não se estressar. Breve, vão lançar a volta às fraldas, para se sentirem mais seguros.
Hoje, quando chego aos setenta anos, pergunto-me, sem esperar resposta, o que significa chegar a essa idade em que não somos mais a esperança de retorno de um investimento, mas a certeza, não tão absoluta, de que o investimento teve retorno, deu lucros e trouxe frutos àqueles que acreditaram em nós.
Perguntamos aos nossos botões: não fomos mais um investimento sem retorno, um ativo que não prosperou? Em linguagem ainda de economista, perguntamos se todas as nossas dores, alegrias, derrotas, conquistas, foram computadas no extrato da conta-corrente que devemos apresentar à sociedade.
Acostumados a conviver, brasileiristicamente, com o crédito que o banco nos antecipa no cartão de crédito, na corda bamba do gasta e repõe, somos a cara do salário que nos pagam, mensalmente: incapaz, às vezes, de resistir até o fim do mês. Há sempre dias que sobram, descobertos, ao final dos trinta dias. Tal é a vida. Há muito mais para viver e gastar do que somos capazes de ganhar.
Resta, ao final de tudo, a certeza de que somos sempre capazes de chegar a um final: da semana, do mês, do curso, de mais um ano. E a certeza, ainda, de que tudo o que somos seja, tão somente a soma de tudo o que investiram em nós e que podemos retornar aos outros, à sociedade.
Se ainda estamos aqui, é porque fomos capazes de resistir a tudo que nos incitava a desistir, é porque também podemos beneficiar alguém e, principalmente, a nós mesmos, pois ainda podemos compartilhar sorrisos, palavras, apertos de mão, acenos, olhares, afagos, esperança, moedas não tão valorizadas no mercado materialista, mas, certamente, as únicas que importam para a eternidade.
Fazer setenta anos é ter sobrevivido aos acidentes, aos planos econômicos, às doenças, às fatalidades, ao desamor, à desilusão, à descrença e, sobretudo, ter a certeza de que o mundo é para ser vivido aqui e agora, e não mais à frente, ou depois de amanhã, pois não há mais tempo para viver. Afinal, já nos afirma o texto bíblico: “A duração da nossa vida é de setenta anos, e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, o melhor deles é canseira e enfado, pois passa rapidamente, e nós voamos”. (Salmo 90, v.10).
Fazer setenta anos é saber que o sentimento e a razão podem conviver, inquilinos da mesma solidão. É saber, por experiência própria, e não porque nos contaram, que a dor e a alegria são parceiras do dia a dia, e da noite também.
É poder dizer que as perdas e ganhos não podem ser computados por nenhum plano econômico, por nenhum tarifaço, por nenhuma disputa ideológica por espaços de poder, porque o ideal, o irreal, o utópico, o pode ser, o vamos fazer, o deixa rolar, o vai que cola, são tão possíveis quanto a desilusão de não o conseguir, aqui e agora. É saber que plantamos o bem e, se não o colhemos como desejávamos, ainda nos restam os dez anos bíblicos para o esperar, mesmo com a canseira e o enfado inevitáveis da senectude.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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