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Turbulência de acontecimentos

Confesso que nunca imaginaria viver tempos tão estranhos quanto o atual

Que mundo ressurgirá após essa experiência de solidão e dor compartilhada em redes sociais? Não sei e nada espero desse novo normal que vir. Passou o outono, atravessamos o inverno e só nos resta sonhar a primavera

Publicado em 17 de Agosto de 2020 às 05:00

Públicado em 

17 ago 2020 às 05:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

No mundo pós-coronavírus, tendência é que o distanciamento social continue existindo embora as pessoas passem a valorizar mais os contatos pessoais
Em isolamento social devido à pandemia, temos acompanhado esse ano estranho passar Crédito: Gerd Altmann/Pixabay
Confesso que nunca imaginaria viver tempos tão estranhos, em que vidas não importam e perder mil ou 100 mil para uma epidemia que poderia ser melhor gerenciada é caso banal. Confesso que não imaginava que o mundo viveria de lives, que a vida dos que estão reclusos, e mesmo as do que não estão, se resumiria em ficar grudado em aparelhos celulares, curtindo, compartilhando e comentando tudo e em todo o tempo.
Confesso que tenho saudade dos encontros com os amigos, dos abraços, dos apertos de mão, do olho no olho, do rosto descoberto, sem uma máscara que nos sufoque o sorriso e o espirro. Confesso até que tenho saudade do tempo em que, ao se espirrar, se ouvia “saúde!” e não um olhar temeroso e um ágil distanciar. Confesso que tenho saudade das viagens, de um final de semana com os amigos em Santa Teresa ou de outros que abriram pousada em Guriri e nos convidam para ir lá, quando tudo passar...
E quando tudo irá passar? Mandetta, o breve, dizia que em setembro. Por isso, espero, ansiosamente, pela primavera. Mas, será? Estamos no pico dessa maledetta epidemia, mais de mil pessoas morrem, diariamente, e nada de sairmos desse cume fatal. Passou o outono, atravessamos o inverno e só nos resta sonhar a primavera.
Os mais realistas dizem que isso não passará tão cedo, teremos de conviver com mais uma doença endêmica no mundo e novas ondas surgirão, ciclicamente, como está a acontecer na Europa e na Ásia. Parece, ainda, que teremos de conviver com isso, com o medo, com as mortes sem velório, com hospitais e cemitérios lotados, até o surgimento da vacina que, parece, também, caminha, mas com passos de ciência, com precaução, cuidados, testes e experimentações. Soluções milagrosas só existem na boca de embusteiros, ainda que estejam no poder.
De tudo isso, o que nos restará? Que mundo ressurgirá após essa experiência de solidão e dor compartilhada em redes sociais? Não sei e nada espero desse novo normal que virá. O que vejo aqui, como a corrupção com verba que deveria ser usada no tratamento da doença, o desmatamento da Amazônia, o incêndio incontrolável do Pantanal, a morte de milhares de espécies animais e vegetais, o aumento da violência, dos assaltos à mão armada, de homicídios, o ressurgimento de ideologias fascistas, o empoderamento de grupos belicistas, o feminicídio, o racismo contra jovens negros inocentes, o extermínio de lideranças e de comunidades indígenas por garimpeiros e por Covid-19, e no mundo, como a eleição de governos nacionalistas e de extrema direita, com todas as suas implicações, nos EUA, Brasil, Bielorrúsia, Turquia, Hungria, além das eternas ditaduras comunistas de Coreia do Norte, Cuba, China e outros países a eles subordinados, com os milhares de jovens e crianças fora da escola, com as guerras intermináveis na Síria e em outras partes do mundo, com a destruição do Líbano, país-irmão, enfim, são tantas as mazelas do mundo e do ser humano que não dá pra acreditar num mundo de paz, de fraternidade, onde todos sejam um.
O sonho de Lennon, em “Imagine”, é só mais uma utopia.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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