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Crônica

Cármen Lúcia anunciou, antecipadamente, a primavera

A primavera é um tempo para nos lembrar que a vida pode ser retomada, que a esperança pode renascer após o inverno

Publicado em 22 de Setembro de 2025 às 03:00

Públicado em 

22 set 2025 às 03:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

Chegou a primavera, depois de longa estiagem, em alguns estados foram quatro meses, a estação mais esperada do ano, com as chuvas que antecedem o verão. Florescem os ipês e as acácias, a natureza em festa renasce, após as queimadas do verão amazônico e pantaneiro, agora menos do que nos tempos do imbrochável.
Seria bom que a gente também fosse assim, como nos disse em versos clássicos a saudosa Cecília Meireles, nossa poetisa-mor: “Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”. Seria bom também se mantivéssemos a inocência da infância, quando cantávamos, a plenos pulmões, as canções da primavera e celebrávamos o dia da árvore.
Havia um culto à natureza, e a literatura é pródiga em poemas que recitávamos ou nas cantigas que entoávamos com ardor juvenil. Quem é idoso, como eu, há de se lembrar de canções como esta: “Nossas matas de verde-esmeralda/Já se cobrem de novas capelas/Dos seus troncos vicejam libertas/Meigas folhas de tranças singelas;/São os lindos vergéis da natura/ onde vemos belezas de palmas;/São riquezas da Pátria adorada/ Que de encanto nos enchem as almas./ Primavera festiva e garrida/ Que engalana as frondosas florestas/ Recebei nossas palmas ardentes/ Recebei nossos risos e festas”.
Ou daquela: “Desperta no bosque, gentil primavera/Com ela chegou o canto/ gorjeio dos sabiás.../Com lindos trinados,/suaves e belos,/gentis vão os passarinhos, saudando a primavera...” Aprendíamos não só a importância da natureza como também o significado de palavras não coloquiais como “garrida”, “capelas”, “vicejam”, “vergéis”, “engalana”, “gorjeio” etc. Cada palavra nova não só ampliava nosso vocabulário como também os conceitos sobre ver e ler o mundo, paulofreireanamente.
Pode ser que seja nostalgia minha ou achaques de velhice, mas acho que sei onde perdemos o bonde e a esperança. Parece que sufocamos o lirismo e a crença de que a sociedade poderia tornar o cidadão melhor, quando deixamos de cultivar a música e a poesia na escola, ou seja, quando a escola passa a ser instrumento de formar “cidadão-operário” e não um ser humano.
A ditadura militar sufocou o sentimento e a subjetividade que as artes proporcionam assim como a extrema-direita tomou como de sua propriedade o culto aos símbolos nacionais, dos quais a bandeira era a mais representativa, e o patriotismo como lema. O “Brasil, ame-o ou deixe-o”, dos anos setenta, deu lugar ao “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” dos dias atuais.
A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), durante primeiro dia de julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e mais 7 réus no STF
A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), durante primeiro dia de julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e mais 7 réus no STF Crédito: Gustavo Moreno/ STF
E tanto lá como cá, não havia e não há nenhuma preocupação com o meio ambiente e os direitos humanos. O desenvolvimentismo a qualquer custo criou a Transamazônica, quando se iniciou a brutal destruição da Floresta Amazônica; a Usina de Itaipu, que engoliu os Saltos das Sete Quedas; as usinas nucleares fracassadas de Angra dos Reis e tantos outros projetos faraônicos que nada respeitaram o equilíbrio ecológico, incluindo as usinas siderúrgicas da Grande Vitória, que deveriam ter sido construídas mais ao norte, conforme a voz rouca e solitária de Augusto Ruschi, que ainda ecoa em nossas memórias.
A primavera é um tempo para nos lembrar que a vida pode ser retomada, que a esperança pode renascer após o inverno. A ministra Cármen Lúcia anunciou, antecipadamente, a primavera, ao afirmar que vale a pena acreditar no Brasil e na democracia como uma maneira de viver, uma escolha sobre a convivência livre das pessoas, com respeito, integridade e autonomia. Obrigado, ministra, por nos fazer acreditar na Justiça e a esperançar.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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