Acompanho as feiras literárias ocorridas em Vitória desde que eram realizadas na Praça Costa Pereira e as palestras e debates aconteciam no teatro Carlos Gomes. Depois, elas foram para os Salesianos, os shoppings e outros espaços. As últimas ocorreram na Ufes e, há cinco anos, desde a pandemia, pararam de acontecer. Uma pena! Recentemente, elas retornaram, com novo formato, e apoio das Leis de Incentivo Cultural, como a Festa da Palavra, realizada em maio, em Itaúnas, e a Feira Literária Diversidade Literária (FLIVDIL), em Vila Velha, no final de semana passado.
Enquanto a Festa da Palavra e a Festa Literária Internacional Capixaba (Flinc), prevista para ocorrer na Casa do Governador, no próximo final de semana, apostam em grandes nomes da literatura nacional e dão pouco destaque ao escritor local, a Feira Literária de Vila Velha organizada pelo Coletivo Diversidades fez uma vasta programação toda voltada para o escritor capixaba, com palestras, lançamentos, debates, mesas-redondas, exposições, dentre outras atividades. Parabéns e obrigado aos organizadores.
Nestes cinquenta anos em que acompanho a literatura produzida no Espírito Santo, sei o quanto é difícil dar visibilidade ao escritor capixaba, que publica, mas não consegue divulgar a sua obra. Os livros são lançados, os que forem ao lançamento os receberão, mas, se os quisermos ter ou ler, não os encontraremos nas poucas livrarias que ainda existem ou os comercializam. No interior do Estado, então, serão dificilmente encontrados. A não ser os do escritor local. E há muitos!
Desde criança, sempre fui um ávido leitor, mas não me lembro de ter lido nenhum escritor capixaba até chegar à faculdade para cursar Letras, em 1973. No interior do Espírito Santo, não circulavam livros nem autores capixabas e o primeiro escritor capixaba que conheci foi o professor Renato Pacheco, quando foi juiz de direito em Guaçuí. Mas grande era a distância entre um menino de dez anos e um juiz e, só mais tarde, reconheci-o como o autor de “A Oferta e o Altar”, um dos primeiros livros que li de autor capixaba.
Me lembro, também, do “Karina”, da Virgínia Tamanini e dos livros de crônicas do Rubem Braga e das crônicas do Carlinhos Oliveira, publicadas no Jornal do Brasil. Na faculdade, ouvi falar de Bernadette Lyra, que já despontava em matérias de jornal, ganhava prêmios, mas ainda não havia publicado nenhum livro. Depois, nos tornamos amigos.
Na virada do século XIX para o XX, o mais importante escritor capixaba foi Amâncio Pereira (1862-1918), professor de séries iniciais, poeta, jornalista, dramaturgo, historiador, contista e romancista. Foi um dos fundadores do IHGES, em 1916, e é o patrono da cadeira 5 da Academia Espírito-santense de Letras. Era preto e filho de mãe solo. Não pôde fazer curso superior, privilégio restrito aos ricos. Foi cancelado pelos divulgadores da literatura espírito-santense e apenas de 1980 para cá teve a obra teatral estudada por Oscar Gama, que o declara ser o iniciador do teatro para crianças no Brasil. Em 2020, publiquei sua biografia “O Pestalozzi Capixaba” e reeditamos o “Homens e Cousas Espírito-santenses”, de 1914. Em 2024, Lei sancionada pela Assembleia Legislativa o declarou “Patrono do Educador Capixaba”. Creio que, assim, reparou-se parte da injustiça histórica que lhe foi feita, mas se quisermos ler alguma das obras que escreveu, pouco encontraremos, mesmo nas bibliotecas tradicionais.