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Literatura

A mulher na Academia de Letras

Dos 179 patronos e acadêmicos da AEL, desde 1921, apenas 14 são mulheres, número bastante pequeno, se comparado à importância que as mulheres têm no cenário cultural e artístico do Espírito Santo

Publicado em 27 de Março de 2023 às 00:10

Públicado em 

27 mar 2023 às 00:10
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

Há exatamente um ano, falecia a jornalista e cronista Jeanne Bilich, ocupante da cadeira 7 da Academia Espírito-santense de Letras, vítima de câncer pulmonar. Sua vaga no coração de seus poucos e fiéis amigos jamais será ocupada, mas a da AEL, por tradição, o foi, pela artista plástica, professora e ambientalista Renata Bomfim, eleita em dezembro passado.
Foi uma posse repleta de simbolismos, com distribuição de mudas de pau-brasil, leitura de poemas e músicas na voz suave da cantora Aline. Uma noite memorável acontecida no mais recente espaço cultural no coração de nossa cidade, o Triplex Vermelho, na Praça Costa Pereira, não por acaso o patrono da cadeira ocupada por Jeanne e Renata. E, também, pela primeira vez, em seus 102 anos de existência, uma mulher sucedeu a outra na AEL.
Renata Bomfim, doutora em Letras, nasceu na Ilha de Vitória, em 1972. É uma ativista na causa ambiental, atua como gestora de projetos socioambientais e criou a Reserva Natural Reluz, com o objetivo de proteger o remanescente capixaba da Mata Atlântica, onde desenvolve trabalhos de educação e proteção ambiental, em parceria com o marido, Luiz.
Renata Bomfim também é ativista ambiental
Renata Bomfim também é ativista ambiental Crédito: Álbum de família
Preside, também, o Instituto Ambiental Reluz, de cuja diretoria também faço parte, junto com Ester. Na área da literatura, fez pesquisas em Portugal, focando os estudos na poetisa Florbela Espanca, e na poesia ibero-americana, sobretudo a de Rubén Dario. Presidiu a Academia Feminina Espírito-santense de Letras, período em que também realizou a 6ª Feira Literária Capixaba, na Ufes.
Como escritora, além de fina ensaísta, Renata é, essencialmente, poeta. Seu último livro, “O Coração da Medusa”, foi premiado no edital da Secult, em 2021; antes dele, publicou “Mina”, em 2010, “Arcano Dezenove”, 2011 e “Colóquio das Árvores”, 2015. Possui publicações em antologias no Brasil e no exterior e é fundadora da Revista Literária Letra e Fel, on-line, desde 2007. É professora universitária, ex-presidente da AFESL e membro efetivo do IHGES.
Renata é uma mulher do seu tempo, militante política engajada nas causas sociais, uma árvore que dá frutos. Por isso, recebe críticas, como todo mundo que se atreve a contrariar o establishment, neste país onde as diferenças sociais estão entre as mais gritantes do mundo.
Renata é a 14ª mulher a entrar na Academia Espírito-santense de Letras, desde a pioneira, Judith Leão Castello, em 1981. Atualmente, elas são oito, entre os quarenta ‘imortais’, um quinto do total. E não é fácil para as mulheres entrarem na Academia. O preconceito contra elas e a misoginia como ranço acadêmico são, também, uma herança greco-latina. Célebres são os aforismos de Eurípedes, “Odeio a (mulher) inteligente; é antes nas espertas que Afrodite inocula o pecado; as imbecis são preservadas dos desejos loucos pela curta extensão da inteligência” e de Petrônio: : “Confia o teu barco aos ventos, mas não confies tua alma às meninas, porque a onda é mais segura que a fidelidade da mulher”.
Com o objetivo declarado de se dedicar à “cultura da língua e da literatura nacional”, fundou-se, em 1896, no Rio de Janeiro, a Academia Brasileira de Letras, constituída por quarenta membros, como a Academia Francesa em que se baseou, sendo todos homens. De acordo com os estatutos da ABL, “só podem ser membros da Academia os brasileiros que tenham, em qualquer dos gêneros da Literatura, obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livro de valor literário”.
Durante mais de 80 anos, a ABL impediu a entrada de mulheres em seu meio, interpretando os “brasileiros” do seu regulamento como, exclusivamente, os do sexo masculino. Quando a Academia Espírito-santense de Letras foi fundada, em 1921, não foi escolhido nenhum nome feminino. A escritora capixaba Guilly Furtado Bandeira, já acadêmica no Pará desde 1913, não foi lembrada para compor o sodalício, embora um de seus primos, Manoel Pimenta, estivesse entre os primeiros acadêmicos.
Dos 179 patronos e acadêmicos da AEL, desde 1921, apenas 14 são mulheres, número bastante pequeno, se comparado à importância que as mulheres têm no cenário cultural e artístico do Espírito Santo. Essa representatividade mínima não é diferente, se lembrarmos que, também na Assembleia Legislativa, as mulheres capixabas são quatro em 30. A luta pela afirmação política e social das mulheres ainda é constante, e o cenário é apenas um pouco melhor do que o vivido pelas mulheres do século XIX, que não poderiam se destacar, para não se tornarem “mulheres públicas”.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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