A palavra “bisonho“ tem, pelo menos, dois significados em português, “soldado inexperiente na tropa, recruta” e “quem tem pouca ou nenhuma experiência, habilidade, treinamento ou conhecimento em alguma capacidade ou ofício”. O bisonho é o inseguro, tímido, inábil, inexperiente, palavra cuja origem está no italiano “bisogno”, “necessidade de obter algo que falta”, cf. dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.
Essa introdução é para dizer que li a narrativa autobiográfica “O Bisonho”, do catarinense Pipe Floriani, que narra, de forma leve e bem-humorada, sobre o período em que serviu ao exército brasileiro, ao fazer 18 anos e se alistar como recruta. Nos agradecimentos, ao final, o autor diz que o livro é uma homenagem “a todos os homens da mochila, sejam eles recrutas, soldados, alunos, praças, aspirantes ou oficiais, mas principalmente os bisonhos”.
Em seu texto, o sentido de “bisonho” é ampliado, pois além de recruta e inexperiente, o jovem que se alistou é tratado pior do que a um animal, igual a um porco, e seu prestígio na caserna é igual a zero. Seu único direito é saber que não possui qualquer direito e, conforme o autor, no prólogo, “Na última tentativa de se livrar do Exército, alguns se passavam por loucos, outros se fingiam de cegos e mais tarde só restava a fuga”.
Li “O Bisonho”, de Floriani, como uma denúncia, já que sua narrativa foi feita baseando-se em “história real” e isso me remeteu à juventude quando, aos 18 anos, como todo jovem brasileiro, fui obrigado a me alistar e, apesar de ser arrimo de família, de trabalhar em dois turnos e de fazer faculdade à noite, tive de “servir o exército”, como se diz, comumente. Essa é uma das arbitrariedades da democracia nacional, pois assim como o voto, o serviço militar não deveria ser obrigatório para ninguém. Servir às Forças Armadas deve ser uma opção profissional e aqueles que o desejarem devem ser preparados para essa profissão com todo respeito que um ser humano merece. Não é através de humilhações, sadismos e atos de crueldade que se forma um cidadão e, muito menos, um militar. Gasta-se muito, no país, com as Forças Armadas, e grande parte desse investimento se vai nessa inadequada, infrutífera e estúpida instituição do serviço militar obrigatório, cuja ideia surgiu há um século, no início da República, com o poeta Olavo Bilac, ardoroso nacionalista e grande propugnador do serviço militar obrigatório e dos tiros de guerra.
Para isso, percorria o país numa jornada cívica, conclamando a mocidade para servir à pátria, e seu enterro, em 1918, foi acompanhado pela artilharia com o mesmo fervor que acompanhou o féretro do General Osório, um dos heróis da Guerra do Paraguai. Um século após a morte do Patrono do Reservista brasileiro, é hora de mudar, acabando com essa instituição nefanda e investindo-se, melhor e com mais qualidade, no profissional das armas, para que tenhamos militares mais bem qualificados que, se vierem a ocupar cargos políticos, via voto popular, não sejam “bisonhos” como o capitão que ora nos governa.