Há algumas semanas, uma campanha vem circulando pela internet com o lema “Block no Tigrinho”. Trata-se de uma mobilização que reúne dezenas de artistas, músicos e personalidades brasileiras para alertar a população sobre os riscos e os prejuízos financeiros e psicológicos causados por jogos e apostas online (bets).
As apostas online, popularmente conhecidas como “bets”, deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento para se tornarem um importante tema de saúde pública. Embora a maioria das pessoas que aposta não desenvolva problemas graves, o crescimento acelerado do setor tem sido acompanhado por evidências cada vez mais consistentes de impactos negativos sobre a saúde mental, a situação financeira e o bem-estar social de uma parcela significativa da população.
A literatura científica internacional demonstra que o jogo problemático está associado a maiores taxas de ansiedade, depressão, sofrimento psicológico e pior qualidade de vida.
Em casos mais graves, o transtorno do jogo pode levar à perda de controle sobre o comportamento de apostar, fazendo com que a pessoa continue jogando apesar dos prejuízos financeiros, familiares e emocionais acumulados. Pesquisas também apontam uma relação importante entre problemas com apostas e aumento do risco de ideação suicida e tentativas de suicídio.
O reconhecimento desses problemas pelos sistemas internacionais de classificação diagnóstica reforça sua relevância clínica. A 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), da Organização Mundial da Saúde, passou a incluir formalmente transtornos relacionados à dependência de determinados comportamentos, além daqueles associados ao uso de substâncias.
Entre eles está o Transtorno por Jogo de Azar (Gambling Disorder), caracterizado por perda de controle sobre o ato de jogar, priorização crescente do jogo em detrimento de outras atividades e persistência do comportamento apesar das consequências negativas.
A CID-11 também inovou ao reconhecer o Transtorno por Jogos Eletrônicos (Gaming Disorder), refletindo o avanço do conhecimento científico sobre comportamentos potencialmente capazes de gerar dependência mediados por tecnologias digitais.
Embora se trate de condições distintas, a inclusão desses diagnósticos evidencia o consenso crescente de que determinados comportamentos podem produzir padrões de dependência capazes de gerar sofrimento significativo e prejuízos sociais, familiares, ocupacionais e financeiros.
No Brasil, as evidências seguem a mesma direção. O Ministério da Saúde passou a tratar os impactos das apostas online como uma questão relevante de saúde pública, destacando sua associação com ansiedade, depressão, endividamento e ruptura de vínculos familiares.
Estudos nacionais indicam que jovens adultos estão entre os grupos mais vulneráveis, especialmente devido à ampla exposição à publicidade digital, à facilidade de acesso por aplicativos e à natureza altamente estimulante das plataformas de apostas.
Um dos principais mecanismos pelos quais as apostas afetam a saúde é o endividamento. Perdas financeiras frequentes podem comprometer o orçamento familiar, gerar inadimplência e provocar estresse crônico.
Esse processo cria um ciclo em que as dificuldades econômicas aumentam a ansiedade e a depressão, enquanto o sofrimento emocional pode levar o indivíduo a apostar ainda mais na tentativa de recuperar perdas anteriores.
Dados do Banco Central mostram que apostadores apresentam maior risco de problemas de crédito em comparação com não apostadores, reforçando a relação entre apostas e vulnerabilidade financeira.
Há ainda uma evidente incongruência no debate brasileiro sobre jogos de azar. Durante décadas, o país manteve a proibição de cassinos físicos sob o argumento de proteger a população dos danos associados ao jogo. No entanto, com a expansão das apostas online, muitas das experiências típicas de um cassino passaram a estar disponíveis diretamente no celular, acessíveis a qualquer hora do dia e em qualquer lugar.
Na prática, embora o cassino tradicional continue ausente da paisagem urbana brasileira, uma versão digital dele passou a ocupar a palma da mão de milhões de cidadãos. Essa transformação aumenta significativamente a disponibilidade e a conveniência do jogo, fatores que a ciência reconhece como importantes determinantes do aumento do consumo e dos danos associados.
Os impactos também ultrapassam o indivíduo. Famílias de pessoas com problemas relacionados ao jogo frequentemente enfrentam conflitos conjugais, insegurança financeira, desgaste emocional e redução da qualidade de vida.
Em contextos de menor renda, a situação torna-se ainda mais preocupante, pois recursos destinados a necessidades essenciais, como alimentação, transporte e educação, podem ser direcionados às apostas. Dessa forma, os prejuízos atingem não apenas os apostadores, mas também seus familiares.
O rápido crescimento do mercado brasileiro de apostas amplia essa preocupação. Milhões de brasileiros participam regularmente de apostas online, movimentando bilhões de reais todos os meses. E infelizmente, à medida que aumenta a exposição da população a esse tipo de atividade, tende a crescer também o número de pessoas que desenvolvem comportamentos de risco ou transtornos relacionados ao jogo.
Um fator que adiciona mais preocupação a esse enredo são os jogos da Copa do Mundo de futebol. Enquanto a bola rola na Copa, as bets invadem cada intervalo, cada tela e cada minuto do jogo. O que parece entretenimento pode se transformar em vício, endividamento e destruição de famílias. Apostar nunca deveria ser mais importante do que torcer.
Portanto, o consenso científico atual não está centrado na existência ou não de danos, mas na melhor forma de preveni-los e reduzi-los. As evidências indicam que políticas de regulação, educação financeira, restrições à publicidade direcionada a grupos vulneráveis, especialmente crianças e adolescentes, mecanismos de proteção ao consumidor e ampliação do acesso ao tratamento para pessoas com transtornos relacionados ao jogo podem desempenhar papel importante na mitigação dos impactos negativos das apostas online.
Além dos prejuízos individuais e familiares, é preciso reconhecer que os custos decorrentes do aumento de casos de ansiedade, depressão, endividamento e transtornos relacionados ao jogo tendem a repercutir sobre toda a sociedade, gerando demanda por atendimento psicológico, psiquiátrico e assistência social.