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Ethel Maciel

O impacto das bets sobre as famílias e o SUS

Um fator que adiciona mais preocupação a esse enredo são os jogos da Copa do Mundo de futebol

Publicado em 25 de Junho de 2026 às 02:30

Públicado em 

25 jun 2026 às 02:30
Ethel Maciel

Colunista

Ethel Maciel

Há algumas semanas, uma campanha vem circulando pela internet com o lema “Block no Tigrinho”. Trata-se de uma mobilização que reúne dezenas de artistas, músicos e personalidades brasileiras para alertar a população sobre os riscos e os prejuízos financeiros e psicológicos causados por jogos e apostas online (bets).


As apostas online, popularmente conhecidas como “bets”, deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento para se tornarem um importante tema de saúde pública. Embora a maioria das pessoas que aposta não desenvolva problemas graves, o crescimento acelerado do setor tem sido acompanhado por evidências cada vez mais consistentes de impactos negativos sobre a saúde mental, a situação financeira e o bem-estar social de uma parcela significativa da população.


A literatura científica internacional demonstra que o jogo problemático está associado a maiores taxas de ansiedade, depressão, sofrimento psicológico e pior qualidade de vida. 

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Em casos mais graves, o transtorno do jogo pode levar à perda de controle sobre o comportamento de apostar, fazendo com que a pessoa continue jogando apesar dos prejuízos financeiros, familiares e emocionais acumulados. Pesquisas também apontam uma relação importante entre problemas com apostas e aumento do risco de ideação suicida e tentativas de suicídio.


O reconhecimento desses problemas pelos sistemas internacionais de classificação diagnóstica reforça sua relevância clínica. A 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), da Organização Mundial da Saúde, passou a incluir formalmente transtornos relacionados à dependência de determinados comportamentos, além daqueles associados ao uso de substâncias. 


Entre eles está o Transtorno por Jogo de Azar (Gambling Disorder), caracterizado por perda de controle sobre o ato de jogar, priorização crescente do jogo em detrimento de outras atividades e persistência do comportamento apesar das consequências negativas. 


A CID-11 também inovou ao reconhecer o Transtorno por Jogos Eletrônicos (Gaming Disorder), refletindo o avanço do conhecimento científico sobre comportamentos potencialmente capazes de gerar dependência mediados por tecnologias digitais.


Embora se trate de condições distintas, a inclusão desses diagnósticos evidencia o consenso crescente de que determinados comportamentos podem produzir padrões de dependência capazes de gerar sofrimento significativo e prejuízos sociais, familiares, ocupacionais e financeiros.


No Brasil, as evidências seguem a mesma direção. O Ministério da Saúde passou a tratar os impactos das apostas online como uma questão relevante de saúde pública, destacando sua associação com ansiedade, depressão, endividamento e ruptura de vínculos familiares. 


Estudos nacionais indicam que jovens adultos estão entre os grupos mais vulneráveis, especialmente devido à ampla exposição à publicidade digital, à facilidade de acesso por aplicativos e à natureza altamente estimulante das plataformas de apostas.

Apostas esportivas, bets
Apostas esportivas Imagem meramente ilustrativa gerada pelo ChatGPT

Um dos principais mecanismos pelos quais as apostas afetam a saúde é o endividamento. Perdas financeiras frequentes podem comprometer o orçamento familiar, gerar inadimplência e provocar estresse crônico. 


Esse processo cria um ciclo em que as dificuldades econômicas aumentam a ansiedade e a depressão, enquanto o sofrimento emocional pode levar o indivíduo a apostar ainda mais na tentativa de recuperar perdas anteriores. 


Dados do Banco Central mostram que apostadores apresentam maior risco de problemas de crédito em comparação com não apostadores, reforçando a relação entre apostas e vulnerabilidade financeira.


Há ainda uma evidente incongruência no debate brasileiro sobre jogos de azar. Durante décadas, o país manteve a proibição de cassinos físicos sob o argumento de proteger a população dos danos associados ao jogo. No entanto, com a expansão das apostas online, muitas das experiências típicas de um cassino passaram a estar disponíveis diretamente no celular, acessíveis a qualquer hora do dia e em qualquer lugar. 


Na prática, embora o cassino tradicional continue ausente da paisagem urbana brasileira, uma versão digital dele passou a ocupar a palma da mão de milhões de cidadãos. Essa transformação aumenta significativamente a disponibilidade e a conveniência do jogo, fatores que a ciência reconhece como importantes determinantes do aumento do consumo e dos danos associados. 


Os impactos também ultrapassam o indivíduo. Famílias de pessoas com problemas relacionados ao jogo frequentemente enfrentam conflitos conjugais, insegurança financeira, desgaste emocional e redução da qualidade de vida. 


Em contextos de menor renda, a situação torna-se ainda mais preocupante, pois recursos destinados a necessidades essenciais, como alimentação, transporte e educação, podem ser direcionados às apostas. Dessa forma, os prejuízos atingem não apenas os apostadores, mas também seus familiares.


O rápido crescimento do mercado brasileiro de apostas amplia essa preocupação. Milhões de brasileiros participam regularmente de apostas online, movimentando bilhões de reais todos os meses. E infelizmente, à medida que aumenta a exposição da população a esse tipo de atividade, tende a crescer também o número de pessoas que desenvolvem comportamentos de risco ou transtornos relacionados ao jogo.


Um fator que adiciona mais preocupação a esse enredo são os jogos da Copa do Mundo de futebol. Enquanto a bola rola na Copa, as bets invadem cada intervalo, cada tela e cada minuto do jogo. O que parece entretenimento pode se transformar em vício, endividamento e destruição de famílias. Apostar nunca deveria ser mais importante do que torcer.


Portanto, o consenso científico atual não está centrado na existência ou não de danos, mas na melhor forma de preveni-los e reduzi-los. As evidências indicam que políticas de regulação, educação financeira, restrições à publicidade direcionada a grupos vulneráveis, especialmente crianças e adolescentes, mecanismos de proteção ao consumidor e ampliação do acesso ao tratamento para pessoas com transtornos relacionados ao jogo podem desempenhar papel importante na mitigação dos impactos negativos das apostas online.


Além dos prejuízos individuais e familiares, é preciso reconhecer que os custos decorrentes do aumento de casos de ansiedade, depressão, endividamento e transtornos relacionados ao jogo tendem a repercutir sobre toda a sociedade, gerando demanda por atendimento psicológico, psiquiátrico e assistência social. 

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Em um país que tem um sistema universal de saúde, parte significativa desses impactos acaba sendo absorvida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que já enfrenta desafios importantes de financiamento e acesso. 


Em outras palavras, enquanto os lucros das apostas se concentram em poucas empresas, uma parcela relevante dos custos sociais e sanitários acaba sendo compartilhada por toda a população.


Ignorar essa realidade significa transferir para as famílias, para os serviços de saúde e para o próprio Estado a responsabilidade por lidar com consequências que poderiam ser prevenidas. 


O debate sobre as bets, portanto, não diz respeito apenas à liberdade de apostar ou à arrecadação de impostos. Trata-se de decidir quem pagará a conta dos danos produzidos por um mercado em rápida expansão: os operadores das plataformas ou a sociedade brasileira, por meio do sofrimento de milhares de famílias e da crescente pressão sobre o SUS.

Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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