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Violência

Segurança pública: é possível fazer diferente?

O assassinato por tortura de Genivaldo de Jesus Santos descortina a miserável e obscena realidade da cultura vigente em nosso meio policial

Publicado em 07 de Junho de 2022 às 02:00

Públicado em 

07 jun 2022 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer Elda Bussinguer
Genivaldo morreu após ser colocado no carro da PF junto com gás
Genivaldo morreu após ser colocado no carro da PF junto com gás Crédito: Redes Sociais/Reprodução
A pergunta não é retórica. Para além do senso comum, no qual se travam acirradas discussões sem que seja possível chegar a qualquer conclusão minimamente razoável, pode haver espaço para um debate crítico e com fundamentação teórica capaz de ajudar a entender o cenário e pensar alternativas de políticas públicas com potencial para o enfrentamento da crise na qual se encontra mergulhado o Estado Brasileiro.
O certo é que chegamos ao fundo do poço. As últimas notícias mostram que o Estado não somente foi incapaz de implementar políticas que garantam ao cidadão brasileiro uma condição mínima de segurança, de acordo com as promessas constitucionais, como é identificado e apontado como o grande violador dos direitos humanos, agressor, por excelência, do cidadão comum, especialmente dos pobres, negros e vulneráveis.
O assassinato por tortura de Genivaldo de Jesus Santos, um homem comum do povo, com deficiência psicossocial, preto, com requintes de crueldade, e com técnicas típicas de governos autoritários, nazistas, que não devem satisfação a ninguém, que matam e torturam em um exercício prazeroso de provocação da dor e do sofrimento alheio, descortina a miserável e obscena realidade da cultura vigente em nosso meio policial.
Sustentados por um Estado que aceita, acoberta e fomenta violações de todas as naturezas, sem que encontrem resistência capaz de interceptar a prática cotidiana de humilhação, desprezo e morte de toda uma geração de excluídos de Direitos, alguns representantes das policias continuam a ensinar e praticar a tortura e a morte, enquanto gozam despudoradamente com os prazeres que lhes provoca o sofrimento daqueles que torturam e matam.
O depoimento do presidente da República sobre o caso em tela, ao afirmar com singela hipocrisia retórica, que os policiais erraram mas que não tinham intenção de matar, revela o atual e deplorável estado de imoralidade pública que vige no país.
Ao banalizar e minimizar o ocorrido, o presidente expõe uma realidade incontestável, qual seja, o Estado brasileiro está acostumado a matar, torturar, discriminar e violar Direitos Humanos e continuará agindo desta forma.
O vídeo no qual o “professor” Ronaldo Bandeira, policial rodoviário federal, ensina aos candidatos ao ingresso na PRF o modus operandi da polícia, não é uma exceção à regra como quis afirmar Marcos Terrino, porta-voz da PRF.
A prática é reveladora da cultura do ensino que se ministra pelo país afora. Não é a simples inserção de disciplinas de Direitos Humanos nos cursos preparatórios quando do ingresso nas polícias que irá alterar toda uma cultura cristalizada e valorizada no imaginário social dos policiais e da sociedade.
Dirão alguns, céticos e pessimistas das políticas públicas, haver uma total impossibilidade de reversão da situação caótica na qual nos encontramos envolvidos.
Analistas pessimistas da situação do Rio de Janeiro, que vivenciou a recente chacina de Vila Cruzeiro, na qual morreram ao menos 23 pessoas, segundo mais letal massacre da história recente daquele Estado, afirmam, com base nas estatísticas, a total impossibilidade de reversão do atual estado de coisas inconstitucional no qual nos encontramos.
Em um Estado fatiado entre os milicianos, o tráfico e o Comando Vermelho, pouco resta de espaço para a intervenção do poder estatal. A ocupação dos territórios pelos aparelhos de Estado não parece mais possível diante de um cenário de total descontrole público e ausência de políticas sociais.
Idealistas ingênuos dirão que basta o Estado ocupar os espaços com políticas públicas de saúde, educação, moradia e outras que a situação poderá ser revertida. Mas como fazê-lo em um território que não se encontra mais sob o domínio do Estado, mas sim das milícias, do tráfico e das organizações criminosas?
O tema é inóspito, árido, provocativo e desafiador, mas o debate é necessário e urgente.
Negar a cultura de violações sistemáticas por parte das polícias e do Estado em geral não é razoável. Ela existe, ainda que existam policiais sérios e comprometidos com a Segurança Pública, tal qual a desejamos e sonhamos, em todas as polícias. Assumir as mazelas e a cultura violadora e buscar caminhos estratégicos de valorização dos Direitos Humanos e de seus defensores no seio das polícias e da sociedade é o grande desafio a ser enfrentado.
Rechaçar e resistir aos fomentadores da violência, ainda que estejam no domínio da máquina pública e nos mais altos cargos do Estado brasileiro, buscando promover um cultura da paz e da igualdade de Direitos, é o grande desafio dessa geração.
Sim, é possível fazer diferente. A violência não pode ser nossa marca constitutiva.
Há inteligência, pesquisadores, conhecimento e integridade no meio de nós que nos permitam encontrar caminhos possíveis, aceitáveis e executáveis para o enfrentamento do estado de inconstitucionalidade no qual nos encontramos hoje.

Elda Bussinguer

Elda Bussinguer Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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