A discussão sobre o aborto no Brasil precisa sair do campo da dissimulação, da farsa discursiva e do falso moralismo e enfrentar a verdade que está a olhos vistos de todas as pessoas que tenham um mínimo de cognição ou de aversão às práticas do autoengano.
O PL 1904 não diz respeito a interesses públicos de natureza social, humanitária, jurídica, ética ou religiosa. Argumentos dessa natureza são apenas estratégias discursivas já consolidadas de modo a angariar o apoio das massas, em especial daquelas formadas por pessoas que se caracterizam por pertencer a agrupamentos religiosos ou sociais com reduzido espaço de reflexão, tolerância ou capacidade de diálogo.
De um modo geral, para além das regras impostas por líderes religiosos e políticos autoritários, repressivos, fundamentalistas e com alto poder de manipulação, existe um mundo real acontecendo nos bastidores, nas periferias das cidades, no oculto, no silêncio velado, mediado pela vergonha e pelo medo, que atinge exclusivamente mulheres. Mulheres negras em especial.
Esse modus operandi dos políticos pertencentes à bancada evangélica ou os cristãos de oportunidade e interesses escusos e de líderes que se autodenominam pastores, coloca em risco a vida das meninas e mulheres pobres, em especial, que precisam buscar a clandestinidade para fazer valer seus direitos, colocando em risco suas vidas, sua honra e sua dignidade.
O PL do estupro, engendrado no submundo de uma classe política desprovida de valores morais, submerge dos conchavos políticos que nada têm a ver com a defesa do direito à vida e a ética cristã.
Esses conluios estão ligados aos jogos de poder que se dão no parlamento e que têm por objetivo, no mais das vezes, alcançar vantagens pecuniárias, de natureza privada, colocando o governo engessado, sem possibilidade de governar a nação a partir de busca da efetivação de direitos sociais, redução das desigualdades, construção de uma nação de livres e iguais.
A estratégia é sempre atuar de forma a manter “tudo como dantes no quartel de Abrantes”: os ricos cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais pobres, os negros no modo de escravidão moderna e as mulheres submissas aos desejos dos homens. Dóceis corpos subjugados às regras estabelecidas em um patriarcado que se impõe como cultura dominante, institucionalizada, estruturada e validada socialmente.
O PL 1904 é a evidência mais significativa do lugar que ocupam as mulheres na hierarquia social. Homens estupradores possuem mais valor do que uma menina vítima de violência sexual. Pastores e religiosos e políticos de conveniência, que se autodenominam defensores da família e da moral, são na realidade uma casta de anticristãos disfarçados em pele de ovelhas.
No caso do PL do estupro, a distopia foi tamanha que os absurdos proferidos em entrevistas e nas redes sociais por Sóstenes Cavalcante, pastor evangélico e relator do projeto, pelos seus apoiadores e pelo presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, deixarem desnudos o caráter, ou a falta dele, a fragilidade cognitiva, a hipocrisia e as verdadeiras intenções do projeto: testar a coragem do presidente Lula e mostrar a força coercitiva de parcela de um Congresso que expropria o Estado e que vive de abocanhar cada vez mais os recursos públicos.
Mulheres e meninas, joguetes nas mãos do parlamento e dos interesses de falsos religiosos que se apresentam como cristãos, são, mais uma vez, condenadas pelo simples fato de serem mulheres, sempre vítimas das diversas violências praticadas contra elas e que demonstram a fragilidade, impotência e incapacidade masculina em lidar com a igualdade, com a potência, liberdade e criatividade das mulheres.
A população, saindo de seu estado de torpor, desrespeitada e compreendendo os jogos de poder perversos e hipócritas de um parlamento que esticou a corda no limite, começa a se levantar, ocupando as ruas e as redes sociais, indicando que há um marco civilizatório que não pode ser ultrapassado e nem retroceder.