Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

PL do aborto

Por que pautas como aborto avançam no governo Lula?

Na onda de projetos conservadores e de retrocesso a direitos, proposta legislativa pretende equiparar qualquer aborto no Brasil ao crime de homicídio, caso a gestação tenha 22 semanas ou mais

Publicado em 21 de Junho de 2024 às 01:30

Públicado em 

21 jun 2024 às 01:30
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

O aborto é considerado crime no Brasil, com penas de até 10 anos. O próprio Código Penal, no entanto, em seu artigo 128, estabelece que não se pune o aborto praticado por médico se não há outro meio de salvar a vida da gestante, ou se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal. Ao julgar a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF nº 54), o Supremo Tribunal Federal ampliou o alcance, permitindo o aborto de fetos anencéfalos.
Porém, na onda de projetos conservadores e de retrocesso a direitos, uma proposta legislativa pretende equiparar qualquer aborto realizado no Brasil ao crime de homicídio, caso a gestação tenha 22 semanas ou mais. Pela nova regra, mesmo o aborto em casos de estupro poderia ser punido com penas mais altas que a do próprio estupro, cuja pena varia de 6 a 10 anos.
Tal projeto de lei, um franco retrocesso, funda-se exclusivamente em viés religioso e com claro intuito machista. Mesmo com possibilidade legal para interrupção da gravidez em caso de estupro, não são raras as ocasiões em que hospitais se negam a realizar o procedimento, como há quase quatro anos, quando o Hospital das Clínicas da Ufes recusou-se a cumprir a ordem judicial e uma criança teve que ir ao Recife/PE para interromper a gestação fruto de estupro.
Em geral, ninguém é a favor de realização de aborto. Não se trata de um jogo de futebol, com torcidas para um e outro lado. O que há são pessoas que entendem que a mulher, sobretudo a vítima de estupro, não deve ser considerada criminosa e levada ao sistema carcerário por decidir não prosseguir com a gravidez.
Uma mulher pode fazer a escolha pessoal por não realizar um aborto, seja por filosofia de vida ou religião professada. Mas, há razão em impor esse entendimento às mulheres que pensam diferente, em especial quando a gravidez decorre de um estupro?
Por certo, a motivação de fundo religioso em muito influencia a decisão política do legislador e da sociedade. Contudo, é pertinente relembrar que, ao menos no plano formal, o Brasil é um Estado laico, não mais confessional, não adota religião oficial.
O respeito ao direito pessoal à convicção e expressão religiosas, não permite ao legislador valer-se de suas concepções de fé para ditar o modelo de vida a ser seguido pelos cidadãos. Tão pouco os cidadãos podem querer impor seu estilo e sua visão de vida aos demais.
Os direitos da personalidade, decorrentes do protagonismo da dignidade da pessoa humana como justificativa racional do Direito, referem-se à proteção fundamental que o Estado deve assegurar à pessoa, incluindo-se a tutela da integridade física e psíquica. É inequívoco que, se o nascituro (feto) merece proteção, a gestante também é titular dos direitos da personalidade, merecendo, pois, ter margem de escolha quanto à sua própria integridade e reprodução, notadamente quando a gravidez não só foi indesejada como foi imposta através da prática de um crime contra a dignidade sexual.
Mas, por que pautas arcaicas como esta têm avançado se, ao menos em tese, o governo do presidente Lula é menos conservador que o antecessor?
A resposta é simples e perpassa a conhecida teoria das repartições de poderes, de Montesquieu. Temas como o aborto estão mais afetos ao Legislativo que ao Executivo, dependem de processo legislativo. Assim, no fim das contas, a palavra derradeira quanto ao aborto ou às drogas está mais ao alcance de deputados e senadores que do presidente da República.
Nas eleições é importante escolher bem os membros do Legislativo, porque eles elaboram as leis. Parlamentares dissociados da realidade conduzem a projetos como esse, que se preocupam mais em punir a mulher que aborta, do que em responsabilizar aquele que comete estupro.

Caio Neri

E graduado em Direito pela Ufes e assessor juridico do Ministerio Publico Federal (MPF). Questoes de cidadania e sociedade tem destaque neste espaco.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem BBC Brasil
Por que os ricos britânicos estão vivendo com saúde cada vez mais que os pobres?
Imagem de destaque
Os planos de Renan Santos para roubar votos de Flávio Bolsonaro: 'Sou o candidato da direita'
Trabalhador da indústria
Brasil, o país do futuro. Mas que futuro?

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados