Corruptos e corruptores florescem em solo fértil no país da impunidade. Implantada em substrato rico de nutrientes, a corrupção se alastra como semente de alta performance a produzir riqueza em abundância para aqueles que a distribuem fartamente em instituições estatais, sem qualquer mecanismo de controle que a impeça de crescer, se desenvolver e se reproduzir.
Da chegada dos portugueses à vinda da família real, e desta aos nossos dias, as riquezas de um Brasil com patrimônio ambiental invejável foram sendo transferidas para colonizadores ávidos, sôfregos e insaciáveis, que nos levaram as madeiras nobres, os minerais, ouro em especial, dentre tantos patrimônios material, cultural e imaterial.
Esses colonizadores, foram, na atualidade, associados ou substituídos por uma elite patrimonialista, coronelista, forjada na cultura de expropriação da mão de obra indígena, escrava e posteriormente miserável, instalada nos latifúndios rurais e, no último século, nas periferias das grandes cidades, aglomeradas em amplos bolsões de pobreza. Esta produto de uma industrialização de matriz extrativista, degradadora ambiental e alimentadora de uma desigualdade de dimensões estratosféricas que mantêm tantos na condição de miserabilidade e da fome que nos envergonha e empobrece como nação civilizada e democrática.
São conhecidas de todos as histórias emblemáticas, alegóricas e peculiares da convivência harmônica entre Estado e elites se beneficiando do patrimônio público como se privado fosse. Os carros oficiais conduzindo os filhos dos políticos às escolas privadas, às festas noturnas, às praias no verão, enquanto escolas públicas careciam de toda e qualquer condição de salubridade, podem parecer coisa do passado, mas não o são.
Os cargos no Executivo, Judiciário, Legislativo e nas empresas estatais mais diversas, ocupados pelos familiares dos “controladores” do Estado, por meio de favores trocados, que permitiram que pessoas totalmente desqualificadas ocupassem os mais importantes e complexos espaços decisórios do país, comprometendo a inteligência nacional e a justiça social, ainda permanecem, com formatos os mais diversos.
A Constituição de 1988, com sua obrigatoriedade de concurso público para ocupação de cargos, que poderia, de alguma forma, ter modificado essa realidade, já que servidores públicos concursados, com estabilidade, poderiam interromper a festa de desvio, naturalizado de recursos públicos para os cofres privados, foi sendo sistematicamente violada, com os discursos de que a máquina pública era pesada, burocrática, ineficiente, corrupta e onerosa.
As novas modelagens não sujeitas ao concurso público, que tinha como objetivo a disponibilização de ingresso no serviço público de forma a contemplar a competência e igualdade de oportunidades, foram abrindo espaços para a manutenção da condição naturalizada de utilização dos espaços públicos nos mesmos formatos que anteriormente, permitindo que os festejos com os recursos públicos continuassem. Mantiveram, assim, o Estado e a sociedade em condição de miserabilidade e florescimento das práticas alimentadoras da corrupção, mantida em estado de permanente endemia, culturalmente aceita e conservada com o silêncio e a conivência de uma sociedade que a aceita com naturalidade, sem qualquer indignação que seja capaz de reverter sua condição de agravo, injúria, ultraje à Justiça, à República e ao cidadão.
Sofisticaram-se os mecanismos de expropriação e a corrupção manteve-se afortunada, requintada e eficaz, sustentada pelo medo e pelo silêncio de muitos, imobilizados pelo receio de perda de seus cargos, sustentáculo de suas famílias, ainda que com miseráveis remunerações, ou necessária repartição do ganho com os parlamentares, adeptos da rachadinha e de outras práticas comuns, aceitas e naturalizadas no meio político brasileiro.
Para além do medo, pavor das retaliações a si e seus familiares, o silêncio se consubstancia na cultura da impunidade e da reversão da culpabilidade, nutrida na transferência da responsabilidade para a parte vulnerável da organização criminosa.
A prevaricação, crime favorito de tantos que observam à distância necessária os crimes cometidos no seu entorno, continua a garantir que a corrupção permaneça potente, inabalável, ainda que utilizada por muitos como mote de suas campanhas políticas, muitas delas financiadas com recursos escusos e práticas corruptivas de caixa 2. Negociatas que envergonham a nação, mas que não fazem corar seus adeptos, quase todos homens aparentemente probos, festejados na sociedade como grandes filantropos e defensores da família, da propriedade e da moralidade.