Terminada a fase da campanha, com uma vitória inquestionável, começa para Lula um de seus maiores desafios, qual seja, a indicação dos ministros que irão ajudá-lo a cumprir as promessas feitas durante o período eleitoral, ao tempo em que recuperam o país da destruição comandada, com maestria, por Jair Messias Bolsonaro.
Há um jogo de xadrez, difícil e arriscado de ser jogado, com muitas peças a serem mexidas, cada uma delas sensível e conectada com muitas outras, podendo colocar todo um projeto a naufragar em águas turbulentas.
Somente um especialista em relações humanas complexas, controlado, sensível às manifestações do interlocutor e de seus grupos, com alto controle das emoções e versado na arte do diálogo, da flexibilidade negocial e da política, para conseguir chegar a uma composição capaz de apaziguar interesses absolutamente divergentes, que somente se uniram em razão dos riscos democráticos envolvidos na continuidade de Bolsonaro no poder.
Para além das estratégias do agir comunicativo propostas por Habermas, todas elas dominadas com maestria por Lula, o presidente eleito tem em suas mãos um exercício de arquitetura sofisticado, que deverá ser desenhado com requintes técnicos e políticos, sabendo, de antemão, que o consenso não poderá ser alcançado. Ele dará a última palavra, baterá o martelo, fiel, espera-se, antes de tudo, àqueles que nele depositaram suas esperanças e fé.
Não será tarefa fácil acomodar todos os interesses intrincados na frente ampla que se formou para que se obtivesse sucesso nesta complexa e arriscada empreitada de retomar o comando do país, retirando das mãos de Bolsonaro o poder de continuar a devastar o Brasil, destruindo toda e qualquer possibilidade de sobrevivência.
Dentre os muitos desafios que lhe estão impostos, Lula deverá fazer um governo voltado para aqueles que de fato o elegeram, quais sejam, os pobres, os mais vulneráveis e as mulheres em especial.
Foram elas que compreenderam que a continuidade da política de armamento do outro candidato atingiria suas famílias de forma irreversível. Foram elas que compreenderam que a continuidade do aumento da violência colocaria em risco, além de sua própria vida, a vida de seus filhos e filhas.
Elas sabem, mais do que ninguém, a importância da merenda escolar, das vacinas, dos medicamentos gratuitos, dos exames para o tratamento do câncer, da oportunidade de que seus filhos possam entrar em uma universidade, da importância da luta contra as múltiplas violências às mulheres, como os estupros, o feminicídio, bem como o desprezo aos negros, aos LGBTQIA+ e a todos que vivem nas ruas, sem moradia e sem ter o que comer.
Lula tem o desafio de equilibrar os mais diferentes interesses, sem perder de vista que, para reconstruir o país, precisará ter, na gestão das políticas públicas, um corpo ministerial no qual o balanceamento de gênero seja demonstrativo evidente da intencionalidade do governo em enfrentar essa que é uma das injustiças históricas mais perversas e que atinge mais da metade da sociedade brasileira.
A representação das mulheres no executivo precisar vir com vigor, ser visualmente impactante na fotografia oficial e nos jogos de poder que se dão nos gabinetes e nos bastidores.
Não há qualquer justificativa capaz de explicar uma continuidade do desequilíbrio histórico, quantitativo, ao qual nunca nos acostumamos e que nos foi imposto em razão de uma matriz patriarcal, machista, que causa indignação, vergonha e dor. Ainda que não seja apenas no sentido de corrigir uma injustiça histórica para com as mulheres, a composição de um ministério que contemple a perspectiva de gênero se justifica por inúmeros outros motivos.
Pesquisas científicas com alto controle metodológico, como a publicada no "Journal of Economic Behavior & Organization", indicam que os índices de corrupção são menores nos países nos quais mais mulheres participam dos governos. Essa pesquisa, realizada em mais de 125 países, na qual o Brasil foi um dos investigados, nos permite perceber a importância de as decisões, a composição ministerial e a composição nos diferentes níveis hierárquicos, no governo, contemplarem uma perspectiva de gênero.
A lógica decisional masculina vigente no país e em todos os ministérios precisa ser descontinuada. Uma nova lógica, agora plural, precisa ser colocada no lugar. Desconsiderar as mulheres, sua força, suas potencialidades, seu conhecimento, sua sensibilidade às questões sociais, sua coragem de enfrentar desafios, sua visão multilateral, inclusiva, é abrir mão de uma riqueza que nem mesmo as mulheres, muitas vezes, reconhecem.
O mundo, apesar de ter em sua composição mais mulheres do que homens, ainda vive sob uma lógica essencialmente masculina. É inaceitável, no estágio civilizatório no qual chegamos, continuar dentro dessa perspectiva reducionista e empobrecedora da humanidade.
O país precisa romper de vez com o conservadorismo, característico da ultradireita, que se alastrou por aqui e pelo mundo, recrudescendo no machismo, no racismo, na violência em geral e na violência contra as mulheres de forma ainda mais gritante.
Lula precisa dar o tom de seu governo, progressista, comprometido com a igualdade, com a justiça, com a pluralidade, rico de ideias, ideais, sonhos e prenhe de futuro, de vida e de paz.
O presidente chileno, fiel às promessas de campanha, nomeou uma equipe ministerial na qual as mulheres formam a maioria. Em Portugal e na Espanha, o número de mulheres supera o de homens no governo. Em países mais desenvolvidos, as mulheres começam a reivindicar seus espaços. Elas sabem que o rompimento com a tradição perversa que as silencia e oculta somente se dará por meio de lutas por reconhecimento e cobranças firmes que mostrem, além de indignação, a força transformadora de mulheres que sabem o que querem, o que podem e o que estão dispostas a enfrentar para a garantia de seus direitos.
Lula tem nas mãos o poder de decidir como irá compor seu ministério e os altos escalões do governo. Sua coragem poderá ser decisiva para colocar o Brasil em um novo patamar de justiça, de igualdade e de civilidade. O país precisa de um presidente feminista, antimachista, seguro de que a igualdade é necessária e indispensável ao alcance da paz social.