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Meninas venezuelanas

Pintou um clima, pintou um crime: onde estão os defensores da família e da moral?

Ainda que a fala do presidente da República não tivesse conotação sexual, ele deveria ele ter tomado medidas imediatas para a proteção daquelas meninas expostas a perigos múltiplos

Públicado em 

25 out 2022 às 00:01
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

O presidente e candidato à reeleição pelo PL, Jair Bolsonaro, gravou vídeo ao lado da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e da representante de Juan Guaidó no Brasil, María Teresa Belandria (à esquerda)
O presidente Jair Bolsonaro gravou um vídeo nesta terça-feira (18) em que pede desculpa pela declaração sobre meninas venezuelanas Crédito: Reprodução
Os números confirmam aquilo que nossa racionalidade teima em não aceitar. Não importa o crime, as violações éticas, os delírios, a corrupção, os 51 imóveis comprados com dinheiro vivo, os deboches, as mentiras e as violências que cometa o atual presidente, ele está blindado e, portanto, continua a ser apoiado pelos evangélicos brasileiros e por todos aqueles que se dizem defensores da família e de uma extensa pauta moral, à qual eles próprios não se submetem.
É necessário reconhecer que há uma "contraética" sendo gestada na sociedade brasileira, de matriz judaico-cristã, que, apesar de se afirmar seguidora de Jesus de Nazaré, e portanto, necessariamente defensora dos valores estabelecidos e cultivados há mais de 2 milênios, passou a se guiar, agora, não mais pelos preceitos bíblicos pautados no amor a Deus e ao próximo, mas no ódio que alimenta a discórdia e a violência em nome dos projetos de poder que assumiram preponderância em suas vidas.
O recente episódio, no qual o presidente afirma, sem qualquer constrangimento, que pintou um clima entre ele e meninas venezuelanas de 14 anos e que esse clima o fez parar e entrar na casa na qual elas estavam é, talvez, a mais emblemática representação dessa nova ética cristã que está sendo gestada e configurada, ao mesmo tempo em que uma nova hermenêutica bíblica vai se estabelecendo nos discursos proferidos dos inflamados púlpitos das igrejas, transformados em palanques, e também nas redes sociais.
Importante registrar que os verdadeiros cristãos, evangélicos ou católicos, não defendem a pedofilia, a violência, o desamor e tantas outras formas escandalosas de agir que se tornaram naturalizadas a partir de projetos de poder de seus lideres. Eles, em razão de suas ambições, têm transformado o cristianismo de forma radical, se distanciando dos ditames que sempre nortearam a ética e o viver cristão.
Em nome da defesa de uma pauta conservadora moral, que entendem compatível com sua fé, eles se deixaram envolver em uma teia de outras pautas com as quais não concordam, mas que passaram a tolerar ou naturalizar em nome de algo no qual acreditam e que lhes parece legítimo de ser defendido.
É preciso separar os lideres oportunistas dos fieis verdadeiros, singelos de fé e de coração que em breve terão seus olhos abertos para a verdade. O problema é que os fins não justificam os meios e podemos estar caminhando para o abismo pensando estar na defesa da ordem e da fé.
A pedofilia, antes considerada uma abominação, um crime a ser denunciado e combatido, é  agora aceita e validada, desde que cometida por aquele que consideram, hoje, seu mito, seu senhor e salvador.
No Direito brasileiro a pedofilia é crime e o que consta no vídeo que viralizou nas redes sociais é uma declaração incontestável de que um crime foi cometido. Independente da interpretação que se tente dar àquilo que foi dito, e está, portanto, documentalmente comprovado, há uma inaceitável conduta criminosa contra meninas, e contra toda a sociedade brasileira sendo defendida e validada por todos que tentam minimizar o ocorrido.
Um homem casado, de 67 anos, que se afirma cristão, evangélico ou católico, dependendo do interesse momentâneo, nunca o saberemos verdadeiramente, e isso pouco importa agora, comete um crime e todos fecham os olhos, apesar da indignação e da revolta que o episódio causa.
São meninas venezuelanas e, portanto, “corpos descartáveis” que podem ser taxadas de garotas de programa sem que haja qualquer sentimento de violação de seus direitos e, em especial, de sua dignidade. Meninas vulneráveis e vulnerabilizadas por uma sociedade machista, patriarcal, patronal, classista, na qual mulheres pobres, imigrantes, possuem pouco, ou nenhum valor, são consideradas escória da sociedade e podem, portanto, ser tratadas com desprezo, humilhadas e expostas, sem que haja qualquer sentimento de solidariedade e compaixão.
As meninas venezuelanas precisam ser protegidas pelo Ministério Público Federal e a Polícia Federal tendo em vista os riscos de sofrerem coação e constrangimentos.
Ainda que a fala do presidente da República não tivesse conotação sexual, o que claramente é indefensável em razão da afirmativa clara e objetiva feita por ele, deveria ele ter tomado medidas imediatas para a proteção daquelas meninas expostas a perigos múltiplos.
Em respeito ao artigo 227 da Constituição Federal deveria o presidente ter agido de imediato em defesa e proteção daquelas que reconheceu em condição de risco e vulnerabilidade social e não o fez
Ao não agir o presidente viola o Estatuto da Criança e do Adolescente e deverá responder por isso assim que perder a imunidade que a presidência e os projetos de poder dos pseudo cristãos lhe faltarem.
Porque não nos enganemos, assim que perder as eleições, não podendo mais atender aos interesses escusos de líderes religiosos que alteraram os preceitos éticos e morais do cristianismo, para enquadrá-los na modelagem bolsonarista, o atual presidente será abandonado e responderá por todos os crimes dos quais hoje se encontra blindado.

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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