A Nestlé anunciou a redução de cerca de 16 mil postos de trabalho em sua operação global até o fim de 2027. A notícia logo ganhou uma explicação tentadora: seria o chamado “efeito Mounjaro”. Menos apetite, menos chocolate, menos produção e, no fim da fila, menos empregos.
Não é para tanto. A própria Nestlé relaciona boa parte dos cortes a uma reorganização mundial, com simplificação da estrutura, automação e redução de custos. Dos postos previstos, cerca de 12 mil são funções administrativas. Portanto, atribuir 16 mil demissões ao fato de consumidores terem perdido a vontade de comer um KitKat seria conferir poderes talvez excessivos a uma caneta emagrecedora.
Mas a associação levanta uma questão econômica bastante interessante.
Medicamentos como Mounjaro ou Ozempic podem efetivamente afetar o emprego, só que por um caminho menos evidente.
Normalmente pensamos no avanço tecnológico como uma ameaça ao trabalho quando uma máquina substitui uma pessoa. Foi assim com o tear mecânico, com os robôs industriais e, agora, com a inteligência artificial. Nos medicamentos para emagrecimento, o mecanismo pode ser diferente. Eles não substituem o trabalhador, eles alteram o consumidor.
Em economia, a demanda por trabalho é derivada da demanda pelos bens e serviços produzidos. A empresa não contrata pessoas simplesmente porque deseja gerar empregos, contrata porque precisa produzir algo que alguém queira comprar.
Se aumenta a procura pelo produto, tende a aumentar também a procura pelo trabalho necessário para produzi-lo. Se a procura diminui, pode ocorrer o contrário.
E é justamente aí que esses medicamentos entram na história. Estudos já identificam redução nas compras de alimentos após o início do tratamento, especialmente de doces, biscoitos, salgadinhos e outros produtos mais calóricos. Se esse comportamento ganhar escala, algumas empresas poderão produzir menos e, consequentemente, precisar de menos trabalhadores.
Nenhum robô tomou o emprego de ninguém. Nenhuma inteligência artificial aprendeu a fabricar chocolate. O consumidor simplesmente passou a querer menos daquele produto.
Mas existe uma segunda parte da história. Quem deixa de gastar cem reais em chocolates não enterra o dinheiro no quintal. Ele provavelmente será gasto em outra coisa: medicamentos, academias, roupas, viagens, alimentação saudável ou qualquer outro consumo. Uma atividade perde demanda, outra pode ganhar.
Por isso, o efeito economicamente mais provável não é simplesmente uma destruição de empregos, mas uma realocação. Alguns setores podem contratar menos enquanto outros passam a contratar mais.
É a velha destruição criativa de Schumpeter aparecendo de uma forma diferente: a inovação nasce na indústria farmacêutica, muda o comportamento do consumidor e acaba atingindo supermercados, restaurantes, indústria de alimentos e mercado de trabalho.
Há ainda um efeito contrário. Se esses medicamentos melhorarem a saúde de parte da população, também podem reduzir afastamentos e absenteísmo. Estudos recentes já encontram sinais nessa direção. Portanto, a mesma tecnologia que eventualmente elimina postos em determinados setores pode aumentar a disponibilidade e a produtividade do trabalho em outros.
O Direito do Trabalho aparece nesse processo, especialmente quando a reorganização econômica resulta em dispensas coletivas. No Brasil, a jurisprudência exige participação sindical prévia nesse tipo de decisão. E é perfeitamente possível que decisões judiciais suspendam dispensas enquanto não houver negociação adequada ou observância dos procedimentos exigidos.
Mas há uma diferença importante entre proteger trabalhadores durante uma transformação econômica e tentar impedir que essa transformação aconteça. O Judiciário pode exigir negociação, assegurar direitos e reduzir os custos sociais da transição. O que dificilmente poderá fazer é obrigar consumidores a continuar comprando produtos que deixaram de desejar apenas para preservar determinados empregos.
Esse talvez seja o ponto mais interessante do fenômeno Mounjaro. A discussão não é simplesmente se ele destruirá empregos. É perceber que uma inovação capaz de alterar algo tão básico quanto o apetite pode também mudar a composição do consumo e, com ela, a própria distribuição dos empregos na economia.
Alguns postos provavelmente desaparecerão. Outros surgirão em seu lugar. A questão relevante não será impedir essa mudança, mas saber se trabalhadores, empresas e o Direito conseguirão se adaptar a ela.