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Elda Bussinguer

O direito de morrer com dignidade: uma conversa difícil, mas necessária

O direito de morrer com dignidade é um assunto que deve ser tratado com serenidade e sem as paixões decorrentes de crenças que não são compartilhadas por todos

Publicado em 25 de Agosto de 2026 às 03:30

Públicado em 

25 ago 2026 às 03:30
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer Elda Bussinguer

Precisamos tirar a morte do lugar de “tema tabu” e colocá-la no centro do debate sobre a existência humana na terra. Tratar com naturalidade esse fenômeno que nos é comum, experiência pela qual haveremos todos de passar, sem exceção, pode nos ajudar a tomar decisões racionais sobre ele enquanto ainda temos o controle de nossa vontade e a autonomia para decidir sobre a forma como queremos vivenciar nossos momentos finais. 


Interditar o discurso sobre a morte é admitir nossa incapacidade de enfrentar aquilo que não conhecemos e sobre o qual não temos a mínima capacidade de controlar. A morte é o grande mistério da existência humana, maior desafio da filosofia, das ciências e das religiões. 


Interditamos a morte enquanto tema de nossas conversas cotidianas para não ter que admitir nossa impotência ante sua presença incômoda, definitiva e radical. Morte essa que, muitas vezes, não anuncia a chegada e nos parece antecipada e injusta, diante de tudo que ainda gostaríamos de viver.

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Ela chega de repente, anunciando que tempos de dor e de saudade irão se impor. Chega exigindo que sejamos fortes  e que estejamos preparados para enfrentar a perda e a separação.  Ouvimos, de forma recorrente, as manifestações de desejo de que nossa própria morte seja fulminante, sem os longos históricos de doenças nas quais convivemos com internações prolongadas, dores, dependência e sofrimento. 


Contraditoriamente aos nossos desejos, entretanto, a morte nos chega, muitas vezes, se instalando  de forma lenta e dolorosa, nos matando aos poucos, tornando o viver carregado de amargura e sofrimento. 


Ela chega interrompendo nossos sonhos e nossos projetos de futuro, nos mostrando, de forma clara e objetiva, que nada mais será como antes e que, a partir daquele momento, o desconhecido se impõe como condição existencial inexorável, a ser vivida na mais completa solidão, ainda que tenhamos ao nosso lado muitas pessoas queridas. 


Morrer é a experiencia humana mais carregada de solidão e de simbolismos que nunca aprenderemos de forma suficiente.  Não há aprendizado capaz de amenizar o sentimento de perda, de ausência que se estabelece  de forma definitiva e irreversível. 


Leito de hospital Fred Loureiro/ Secom-ES

A vida é breve como um leve sopro que passa nos deixando a sonhar com  tempos passados que não voltam mais e que, no máximo, ficarão como vagas lembranças de tempos nos quais a saúde e a vida se mostravam mais amigáveis do que agora. 


A morte é uma condição existencial da qual nenhum de nós haverá de escapar, ainda que a ciência avance e a capacidade humana de brincar de Deus, em busca da imortalidade, se mostre cada dia mais, aparentemente, possível. Há uma impossibilidade fática de controlar o tempo da existência humana. 


Prolongamos nossa vida com o controle de doenças e tratamentos inimagináveis há apenas algumas décadas. Doenças cujos diagnósticos no passado representavam uma sentença de morte hoje estão controladas, ampliando o tempo de vida, garantindo, em alguns casos, qualidade suficiente para que se viva com dignidade.


Os tratamentos contra o câncer e diversas outras doenças crônicas ou condições de cronicidade, como em doenças com comprometimento neurológico,  avançaram. A cura já é possível em doenças antes consideradas incuráveis. 


Outras situações, entretanto, representam, apenas, um prolongamento da vida sem qualquer justificativa lógica, já que mantem nossos corpos vivos, mas nossa dignidade violada e sem qualquer condição de representar, de fato, algo que possa, minimamente, ser chamado de vida. 


Vida implica em dignidade. Deixar corpos com o coração batendo, e o corpo funcionando em aparente normalidade, mas sem qualquer condição de sobrevida razoável e com dignidade, não pode ser um projeto de vida que se considere justo e humano.  


Prolongar indefinidamente a vida quando a dignidade já não é mais possível e a morte, de alguma forma, já se instalou não pode ser compatível com um sistema de justiça justo que garanta a todos viver e morrer com dignidade. 


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O direito de morrer com dignidade é um assunto que deve ser tratado com serenidade e sem as paixões decorrentes de crenças que não são compartilhadas por todos. O direito à morte digna precisa se trazido ao debate sem as interdições decorrentes de crenças e tabus que não se sustentam nos dias atuais. 


Quando a morte, de alguma forma, já se instalou, é necessário que cada um de nós tenha o direito de decidir sobre como deseja encerrar essa etapa de dor e sofrimento. 


A medicalização da vida tornou a morte um fenômeno distante e asséptico,  mas a realidade é sempre dolorosa, solitária e triste. Morrer com dignidade é um direito que precisa ser garantido pelo Estado, ainda que alguns decidam por outros caminhos. 


Compartilhamos a vida e precisamos respeitar a vontade de cada um que, diante da dor e do enfrentamento de doenças irreversíveis, decida o que é morrer com dignidade, amparado pelo Estado em uma Ordem jurídica justa que respeite a autonomia e a liberdade, também no fim da vida.


Elda Bussinguer

Elda Bussinguer Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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