Precisamos tirar a morte do lugar de “tema tabu” e colocá-la no centro do debate sobre a existência humana na terra. Tratar com naturalidade esse fenômeno que nos é comum, experiência pela qual haveremos todos de passar, sem exceção, pode nos ajudar a tomar decisões racionais sobre ele enquanto ainda temos o controle de nossa vontade e a autonomia para decidir sobre a forma como queremos vivenciar nossos momentos finais.
Interditar o discurso sobre a morte é admitir nossa incapacidade de enfrentar aquilo que não conhecemos e sobre o qual não temos a mínima capacidade de controlar. A morte é o grande mistério da existência humana, maior desafio da filosofia, das ciências e das religiões.
Interditamos a morte enquanto tema de nossas conversas cotidianas para não ter que admitir nossa impotência ante sua presença incômoda, definitiva e radical. Morte essa que, muitas vezes, não anuncia a chegada e nos parece antecipada e injusta, diante de tudo que ainda gostaríamos de viver.
Ela chega de repente, anunciando que tempos de dor e de saudade irão se impor. Chega exigindo que sejamos fortes e que estejamos preparados para enfrentar a perda e a separação. Ouvimos, de forma recorrente, as manifestações de desejo de que nossa própria morte seja fulminante, sem os longos históricos de doenças nas quais convivemos com internações prolongadas, dores, dependência e sofrimento.
Contraditoriamente aos nossos desejos, entretanto, a morte nos chega, muitas vezes, se instalando de forma lenta e dolorosa, nos matando aos poucos, tornando o viver carregado de amargura e sofrimento.
Ela chega interrompendo nossos sonhos e nossos projetos de futuro, nos mostrando, de forma clara e objetiva, que nada mais será como antes e que, a partir daquele momento, o desconhecido se impõe como condição existencial inexorável, a ser vivida na mais completa solidão, ainda que tenhamos ao nosso lado muitas pessoas queridas.
Morrer é a experiencia humana mais carregada de solidão e de simbolismos que nunca aprenderemos de forma suficiente. Não há aprendizado capaz de amenizar o sentimento de perda, de ausência que se estabelece de forma definitiva e irreversível.
A vida é breve como um leve sopro que passa nos deixando a sonhar com tempos passados que não voltam mais e que, no máximo, ficarão como vagas lembranças de tempos nos quais a saúde e a vida se mostravam mais amigáveis do que agora.
A morte é uma condição existencial da qual nenhum de nós haverá de escapar, ainda que a ciência avance e a capacidade humana de brincar de Deus, em busca da imortalidade, se mostre cada dia mais, aparentemente, possível. Há uma impossibilidade fática de controlar o tempo da existência humana.
Prolongamos nossa vida com o controle de doenças e tratamentos inimagináveis há apenas algumas décadas. Doenças cujos diagnósticos no passado representavam uma sentença de morte hoje estão controladas, ampliando o tempo de vida, garantindo, em alguns casos, qualidade suficiente para que se viva com dignidade.
Os tratamentos contra o câncer e diversas outras doenças crônicas ou condições de cronicidade, como em doenças com comprometimento neurológico, avançaram. A cura já é possível em doenças antes consideradas incuráveis.
Outras situações, entretanto, representam, apenas, um prolongamento da vida sem qualquer justificativa lógica, já que mantem nossos corpos vivos, mas nossa dignidade violada e sem qualquer condição de representar, de fato, algo que possa, minimamente, ser chamado de vida.
Vida implica em dignidade. Deixar corpos com o coração batendo, e o corpo funcionando em aparente normalidade, mas sem qualquer condição de sobrevida razoável e com dignidade, não pode ser um projeto de vida que se considere justo e humano.
Prolongar indefinidamente a vida quando a dignidade já não é mais possível e a morte, de alguma forma, já se instalou não pode ser compatível com um sistema de justiça justo que garanta a todos viver e morrer com dignidade.
O direito de morrer com dignidade é um assunto que deve ser tratado com serenidade e sem as paixões decorrentes de crenças que não são compartilhadas por todos. O direito à morte digna precisa se trazido ao debate sem as interdições decorrentes de crenças e tabus que não se sustentam nos dias atuais.
Quando a morte, de alguma forma, já se instalou, é necessário que cada um de nós tenha o direito de decidir sobre como deseja encerrar essa etapa de dor e sofrimento.
A medicalização da vida tornou a morte um fenômeno distante e asséptico, mas a realidade é sempre dolorosa, solitária e triste. Morrer com dignidade é um direito que precisa ser garantido pelo Estado, ainda que alguns decidam por outros caminhos.
Compartilhamos a vida e precisamos respeitar a vontade de cada um que, diante da dor e do enfrentamento de doenças irreversíveis, decida o que é morrer com dignidade, amparado pelo Estado em uma Ordem jurídica justa que respeite a autonomia e a liberdade, também no fim da vida.