Com tantas mulheres atualmente a escrever poemas, romances e contos é comum falar sobre “literatura feminina”. Se vocês me perguntarem o que penso do termo, direi que é uma falácia. E das bem perigosas.
Literatura feminina dá a impressão de que há determinação biológica na produção literária. É como se existisse uma naturalização dos atributos da mulher, já devidamente “naturalizada”, através dos tempos, pela condescendência de uma visão masculina.
Na verdade, a produção literária das escritoras sempre se fez sobre conquistas árduas e progressivas. Como esquecer que, por séculos e séculos, a existência de tantas mulheres foi mantida entre quatro paredes do lar, sem acesso à educação e isolada do convívio e das decisões sociais?
No Brasil, por exemplo, as mulheres só foram autorizadas a frequentar a escola pública em 1827. E, em 1930, Amélia Bevilácqua, autora de "Através da vida" (1906), "Angústia" (1913) e "Jeanete" ((1933), primeira mulher a se candidatar a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, foi recusada sob a alegação de que a palavra “brasileiros” nos estatutos da ABL significava que somente os indivíduos do sexo masculino poderiam fazer parte da instituição.
Sem falar que as mulheres que ousavam fazer literatura eram ridicularizadas em comentários e piadas. Algumas tinham de ter autorização dos pais ou maridos para publicar; outras eram obrigadas a usar pseudônimos masculinos.
Vocês sabem que tanto o lugar geográfico quanto o lugar que as pessoas ocupam nas sociedades e culturas podem influenciar as práticas artísticas literárias e modelam a escrita de alguém.
Isso não quer dizer que alguém pode diminuir, vetar, censurar ou desprezar a produção de quem não faz parte de seu espaço social, cultural e existencial. É preciso muito cuidado para não cair na armadilha dessa coisa ridícula da cultura woke, chamada “lugar de fala”, que já virou preconceito, por exemplo: achar que só mulher pode falar sobre mulher, preto falar sobre preto, gay falar sobre gay etc.
Apesar dos avanços atuais, marcados pelas mudanças civilizatórias, a igualdade de gênero ainda é uma meta a ser alcançada, seja na literatura, seja em outros espaços artísticos.
O número de mulheres que fazem literatura e que vivem dela ainda é menor do que o de homens. É preciso não se deixar apanhar por conceitos ou despeitos. Que mais e mais mulheres tenham o prazer e a coragem de escrever e publicar.
Afinal, não existe uma medida apenas para a produção criativa humana. E fazer literatura independe de gênero. Basta ter o dom, cultivar a técnica e acreditar na força da imaginação.