O recente decreto assinado pelo presidente Donald Trump, no qual reduz de 18 para 11 o número de vacinas a serem administradas às crianças de seu país, coloca em risco real a vida e a saúde de milhares de crianças, não apenas norte-americanas, mas de todo o mundo, considerando as dificuldades inerentes ao controle de doenças virais.
Importante registrar, por exemplo, que o sarampo, doença com alto poder de contágio, continua a ser uma importante causa de morte em crianças pequenas de regiões mais empobrecidas onde a desnutrição é uma realidade e a baixa cobertura vacinal permanece sendo um problema a ser superado.
Ainda que, na realidade norte-americana, cada estado tenha autonomia para estabelecer sua própria política vacinal, não ficando vinculado ao decreto presidencial, é inegável a força da manifestação de Trump sobre a opinião pública, especialmente considerando a expansão do movimento antivacina, negacionista da ciência.
Trump e seu secretário de Saúde e Serviços Humanos, o correspondente ao ministro da saúde no Brasil, desprezam as orientações da Associação de Pediatria dos Estados Unidos e da Organização Mundial da Saúde que estabelecem diretrizes para a vacinação infantil, baseadas em evidências científicas.
Presidente e ministro caminham ao sabor de suas próprias vontades e verdades, baseadas na ignorância e na disseminação de desinformação em saúde. Eles desconsideram as conquistas alcançadas no campo da saúde com as políticas de expansão da cobertura vacinal.
Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) antes da vacinação em massa em 1980, o sarampo matava 2,6 milhões de pessoas por ano em todo o mundo, sendo 12 mil nas Américas.
Segundo a OPAS, de 2000 a 2023, a vacina contra sarampo evitou 6,2 milhões de mortes nas Américas e 60 milhões em todo o mundo. Não há como negar os avanços obtidos com a descoberta das vacinas, uma das maiores e mais eficazes inovações que o mundo moderno foi capaz de produzir.
Não se pode desconsiderar o poder da palavra e da caneta de homens como Donald Trump e Robert Kennedy Jr. Quando, em 2021, Kennedy Jr. afirmou, na Pensilvânia, que sarampo se curava com “canja de galinha”, ninguém imaginava o efeito devastador dessa aparente inconsequência discursiva. Hoje, os EUA, e a Pensilvânia em particular, vivem um dos maiores surtos de sarampo de sua história e o agora ministro da saúde precisou se retratar, de alguma forma, recomendando publicamente a vacinação.
O sarampo está de volta e os reflexos das políticas negacionistas se estendem por décadas, até que se consiga retornar aos status quo anterior.
Líderes como o presidente norte-americano, o ex-presidente Jair Bolsonaro e o presidente argentino Javier Milei, entre outros, impõem ao mundo ameaças concretas à democracia e à vida. O futuro se mostra sombrio, podendo nos levar a retrocessos inimagináveis há poucas décadas.
Se olharmos para a história recente do Brasil, veremos que o negacionismo e a crueldade manejados por Bolsonaro como política pública nos impuserem a vergonhosa e trágica estatística de sermos o país, proporcionalmente, com o maior número de mortes do mundo durante a pandemia de Covid-19. Foram 711 mil pessoas que perderam suas vidas.
Registre-se também que instituições que deveriam defender a ciência, como o Conselho Federal de Medicina, deixaram-se envolver por discursos e práticas que representavam um desprezo absoluto pela ciência, validando as extravagâncias negacionistas.
O Brasil, mesmo após quatro anos de intenso investimento em vacinas e na conscientização da sociedade brasileira, ainda não conseguiu atingir a meta de cobertura vacinal de sarampo necessária para que possamos viver em segurança de que uma epidemia não nos surpreenderá a qualquer momento.
São muitos os desafios a serem enfrentados pelo Brasil e pelo mundo no campo da saúde coletiva, mas o principal deles é combater a desinformação e o negacionismo da ciência, denunciando e criminalizando de forma exemplar aqueles que de modo irresponsável e criminoso colocam em risco a vida de crianças e adultos.
O Brasil, por meio do Ministério da Saúde e de seu Programa Nacional de Imunização, tem feito o dever de casa implementando políticas públicas de conscientização recolocando o país no topo da eficácia, eficiência e efetividade da política de vacinação, que garante a todos, o Direito a saúde com segurança e dignidade.