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Elda Bussinguer

O ministro do STJ e o assédio sexual: a Justiça é para todos

O que antes ficava oculto nas estruturas de poder solidamente cristalizadas nas instituições começa a vir à tona, iluminado pela coragem de mulheres

Publicado em 11 de Agosto de 2026 às 03:45

Públicado em 

11 ago 2026 às 03:45
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer Elda Bussinguer

Vivenciamos, no último dia 6 de agosto, um momento especial que ficará marcado na história como sinal de esperança para as mulheres brasileiras de que novos tempos se avizinham e que a cultura naturalizada da importunação e do assédio sexual que lhes desqualifica, objetifica, silencia e violenta está começando a sofrer fissuras. 


Marco Buzzi, ministro do Superior Tribunal de Justiça, foi punido por seus pares, por unanimidade, com uma proposta de perda do cargo por injúria, importunação e assédio sexual em processo administrativo disciplinar.


O que antes ficava oculto nas estruturas de poder solidamente cristalizadas nas instituições começa a vir à tona, iluminado pela coragem de mulheres que entendem, como Michelle Perrot, que a vergonha deve mudar de lado. .

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Ao utilizar o argumento da disfunção erétil como justificativa para não poder ser enquadrado como assediador, o ministro e sua banca de defesa evidenciam o desespero que se abateu sobre ele, já que o assédio não depende de funcionamento erétil ou qualquer outro tipo de fragilidade física para se concretizar. 


Ao se apresentar como sendo portador de disfunção erétil o ministro sai da condição de predador para a condição de homem que precisa, para se defender, passar por um processo de humilhação pública que o coloca em um lugar de vergonha e dor. 


Não é apenas a perda do cargo que poderá representar uma mudança radical na sua qualidade de vida, é o vexame da exposição pública diante de todos. A vergonha está mudando de lado e isso só acontece porque mulheres estão se sentido empoderadas para denunciar aquilo com o que não suportam mais conviver. Séculos de uma cultura que mulheres passam a questionar e dizer com todas as letras e em alto e bom som que não mais irão admitir. 

Fachada do Superior Tribunal de Justiça (STJ)
Fachada do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Marcello Casal Jr/Agência Brasil

São mulheres de todas as cores, de todas as idades, de todas as religiões, de todas as matizes políticas, de todas as classes sociais e de todos os cantos do país que começam a se unir em uma revolução potente, ainda que tímida em alguma medida, que começa a produzir resultados que já indicam uma virada inimaginável há pouco tempo. 


A punição aplicada ao ministro Marco Buzzi é um signo importante, indicativo dessa revolução que estamos prestes a vivenciar. Considerando que, segundo dados do Fórum de Segurança Pública, em 2025, 49,6 % das mulheres brasileiras sofreram algum tipo de assédio, podemos dimensionar a grandeza do problema e imaginar o que representaria, do ponto de vista dessa revolução, se todas elas decidissem denunciar seus assediadores. O Brasil sofreria sua mais emblemática e vigorosa transformação e uma verdadeira revolução feminina abalaria as estruturas da república.   


Que a coragem dessas mulheres que denunciam nos sirva de exemplo e de estímulo para que outras mulheres se juntem a essa revolução, independentemente de terem coragem de se assumir feministas ou não

Elda Bussinguer

Elda Bussinguer Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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