No último domingo (26), o maior gênio da economia brasileira teria completado 100 anos se estivesse vivo. Seu pensamento desenvolvimentista, contudo, segue absolutamente vistoso e em expansão. Com imensas realizações e passagens históricas, da FEB (Força Expedicionária Brasileira) à FEB (Formação Econômica do Brasil, obra clássica do economista), Celso Furtado conseguiu, com maestria, conciliar a profícua vida acadêmica com a agitada vida política. Do sertão da Paraíba a Sorbonne, LSE e Yale, encantou a academia mundial e enervou coronéis nordestinos.
Junto com o argentino Raúl Prebisch, desenvolveu a escola desenvolvimentista da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, vinculada às Nações Unidas). A partir de seus ensaios, foi possível ter uma noção mais precisa e detalhista do subdesenvolvimento de países pobres, como o Brasil. Muito antes de se falar em “globalização”, Furtado já constatava que, ao contrário do que se defendia (e ainda se defende por aí), países ditos “em desenvolvimento” não caminham necessariamente para um estágio de equiparação com os países ricos.
Numa relação entre países centrais e periféricos, em que estes importam tecnologia e compram o excedente produtivo daqueles, com alto valor agregado, enquanto exportam commodities, a tendência é de aumento da desigualdade. Internamente, enquanto uma pequena parcela da população possui renda suficiente para consumir como se fosse cidadão de um país rico, a grande massa mantém apenas o consumo de subsistência. Como o mercado de bens supérfluos se renova constantemente, ampliando o bem-estar da parcela rica da população, a desigualdade social só aumenta.
Para Furtado, portanto, seria necessário um desenvolvimento comprometido com a igualdade. Industrialização com tecnologias próprias e salários suficientes para que o trabalhador brasileiro consuma além da mera subsistência. Ou seja, que ganhe suficientemente bem para o alimento, o lazer, a cultura, enfim, a dignidade humana. A valorização da mão de obra não é mero capricho de preocupação social, é norte para o desenvolvimento econômico de uma nação livre.
Sendo um pensador desenvolvimentista heterodoxo, sofreu natural oposição. Furtado sempre defendeu o Estado como agente propulsor do progresso e, por conta disso, sua obra foi deixada de lado no auge do neoliberalismo, que propunha o desenvolvimento a partir tão somente da iniciativa privada.
Entretanto, nos últimos anos este modelo se viu colapsando, com desindustrialização e desigualdade social sem precedentes. A pandemia apenas acelerou o processo, descortinando o problema de forma mais ostensiva, trazendo de volta os discursos de Keynes e, claro, de Celso Furtado.
Tudo isso colocou o mundo num ponto de convergência, em que, independentemente de ideologias e posições do passado recente, as partes (governos, empresas e cidadãos) assumem maior comprometimento para, em conjunto, aplicarem o “great restart”, defendido por Klaus Schwab (criador do Fórum de Davos).
Mais que atuar apenas nas falhas de mercado (modelo keynesiano), o Estado deve empreender, apostando na iniciativa privada. A empresa deve valorizar as partes interessadas, em especial, o trabalhador. E este, por sua vez, como destinatário final de todo o processo, deve agir com responsabilidade e cidadania para garantir sua liberdade e dignidade. Esse ponto de convergência, rumo ao desenvolvimento global sustentável, talvez seja o legado de todo o trabalho teórico e prático deixado por Celso Furtado.