Nos últimos meses, o Brasil tem ostentado um dos mais baixos índices de desemprego de sua história recente, algo que, em tese, deveria ser celebrado como um sinal inequívoco de recuperação econômica e fortalecimento do mercado de trabalho. Só que quando analisamos o cenário com um pouco mais de atenção aos detalhes e à evolução temporal, percebemos que os números não contam toda a história.
O que aparenta ser um dado positivo pode esconder uma preocupante tendência de precarização das relações de trabalho, perda de poder de compra e, finalmente, uma insustentabilidade econômica no longo prazo. Para compreender melhor esse fenômeno, podemos recorrer tanto à escola neoclássica quanto à keynesiana, que, longe de serem excludentes, se complementam na explicação desse panorama.
Para a escola neoclássica, o mercado de trabalho opera como qualquer outro mercado: a interação entre oferta e demanda determina o nível de emprego e os salários. Nesse modelo, se há excesso de mão de obra disponível (desemprego), os salários reais tendem a cair até que o mercado se equilibre.
Por outro lado, se há escassez de trabalhadores, os salários reais aumentam, reduzindo a demanda por trabalho. O desemprego baixo seria, portanto, um sinal de que o mercado de trabalho está ajustado, o que, para um governo que busca vender uma narrativa otimista, pode parecer um sucesso inquestionável.
Contudo, na realidade a teoria é outra. O que temos visto no Brasil não é exatamente um aumento expressivo dos salários reais, mas sim um crescimento do emprego baseado em vínculos precários, como o trabalho informal e por conta própria (plataformizado ou não).
O índice de desemprego caiu, mas a qualidade das ocupações geradas não melhorou na mesma proporção. Assim, se por um lado os neoclássicos podem interpretar o baixo desemprego como um sinal de ajuste eficiente do mercado de trabalho, a ausência de ganhos salariais reais sinaliza um problema de sustentabilidade econômica: a renda do trabalhador não cresce o suficiente para impulsionar o consumo e, por consequência, a demanda agregada.
A escola keynesiana enxerga a economia de forma diferente. Em vez de focar exclusivamente na oferta e demanda por trabalho, Keynes destacou a importância da demanda agregada como motor da atividade econômica. Para ele, não basta que haja pessoas empregadas, é essencial que elas possuam poder de compra para sustentar o crescimento econômico.
O problema do atual cenário brasileiro é que a inflação tem corroído os salários reais, fazendo com que o crescimento do emprego não se converta em aumento proporcional do consumo.
Com salários baixos e relações de trabalho instáveis, o consumo sofre um impacto negativo. Empresas, percebendo a retração da demanda, podem reduzir investimentos, criando um círculo vicioso que prejudica o crescimento. O modelo keynesiano sugere que, sem uma política econômica que estimule a renda real da população — seja por meio de valorização do salário mínimo, investimento público ou incentivos ao setor produtivo —, o desemprego pode até permanecer baixo, mas à custa de uma economia frágil e vulnerável a choques.
Aliás, o governo tem andado na contramão, reduzindo o ganho real do salário mínimo e endividando a população com empréstimos lastreados no FGTS, como falamos anteriormente nesta coluna.
Mas voltando à complementariedade entre as duas escolas: o modelo neoclássico explica a mecânica do mercado de trabalho e como o salário real influencia o emprego, enquanto a escola keynesiana alerta para as consequências macroeconômicas de um mercado de trabalho baseado em empregos precários, baixos salários e endividamento da população.
O que vemos no país hoje não é um exemplo de pleno emprego sustentável, mas sim um mercado de trabalho ajustado às custas da precarização e da perda de poder de compra.
A consequência disso é previsível: se o consumo continuar pressionado e a demanda agregada se enfraquecer, os ganhos no emprego podem se tornar insustentáveis. Empresas que contratam mais hoje podem ter dificuldades em manter seus funcionários amanhã se o mercado consumidor estiver desaquecido (o aquecimento lastreado em endividamento não se sustenta). Dessa forma, um índice de desemprego baixo, sem um correspondente crescimento real da renda, é uma bomba-relógio econômica.
Diante desse quadro, a retórica oficial enfatiza apenas o lado positivo dos números, mas ignora deliberadamente as fragilidades do modelo atual. O desemprego pode estar em baixa, mas a inflação, o endividamento das famílias e a estagnação dos salários apontam para um cenário bem menos otimista. Se não houver um crescimento sustentável da renda real dos trabalhadores, a recuperação do emprego será ilusória, com risco de reversão a médio prazo.
Em outras palavras, a comemoração é ilusória e interesseira, pois a realidade é mais complexa. Sem políticas que revertam a perda do poder de compra, o baixo desemprego pode ser apenas o prenúncio de uma crise futura, na qual trabalhadores empregados, mas empobrecidos, não conseguirão sustentar o crescimento econômico. E, quando isso acontecer, talvez não haja mais emprego para comemorar.