Atualmente, o salário mínimo é corrigido pela inflação do ano anterior, acrescido de um aumento real equivalente ao PIB de dois anos antes. Exemplificativamente, o mínimo de 2024 (R$ 1412) decorre de um aumento de 6,97% em relação ao de 2023 (R$ 1320). Esse valor é a soma (cálculo composto) da inflação 2023 (INPC de 3,85%) e do PIB 2022 (3%).
Isso significa que, conforme essa política de valorização, a cada ano a base de trabalhadores recebe mais em valores reais, o poder de compra aumenta. E faz todo sentido, pois se o país cresceu economicamente, é justo que isso seja dividido com todos que, de alguma forma, contribuíram para o resultado positivo.
O problema dessa política é que em ciclos recessivos fica difícil fechar a conta. Um aumento real do salário mínimo implica em aumento de informalidade e desemprego se for demasiado ou se a economia estiver mal. De 2002 a 2016, houve período exitoso dessa política, ao menos até 2014, quando o Brasil surfava numa onda global de crescimento.
De 2004 a 2010 o país teve uma expansão notável no mercado de exportação de commodities (soja, minério de ferro e petróleo), conseguindo um período de estabilidade econômica. Com um crescimento anual médio de 4,5% nesse período, o aumento do salário mínimo teve um duplo impacto positivo: reforçou o consumo interno, pois boa parte dos beneficiários do salário mínimo pertence à base da pirâmide de renda, e reduziu a desigualdade, contribuindo para o aumento da massa salarial.
Contudo, a partir de 2014, o Brasil enfrentou uma crise econômica severa, intensificada em 2015 e 2016. O PIB encolheu mais de 7% no biênio, e as contas públicas entraram em desequilíbrio. O contexto adverso levou a questionamentos sobre a sustentabilidade da política de valorização do salário mínimo, já que os aumentos reais continuavam a pressionar as despesas públicas, especialmente com benefícios previdenciários indexados ao mínimo.
Em 2016, com a troca de governo e a adoção de uma agenda de austeridade de Temer, a política de valorização foi descontinuada. Desde então, os reajustes passaram a considerar apenas a reposição da inflação, ao menos até o retorno de Lula ao governo.
“Enfim, embora sem muito respaldo econômico ou contábil, a promessa de aumento do mínimo para R$ 1320 pode ser uma opção política a partir de maio, mas desde que o governo faça o que tenha que ser feito: corte de gastos (o que duvidamos que ocorra) e a reforma fiscal com o máximo de brevidade (sem maior otimismo quanto a isso). Caso a lição de casa seja feita, é possível, a médio prazo, esperar uma nova política permanente de valorização do salário mínimo, melhor bem-estar do trabalhador brasileiro e efetivo desenvolvimento social na busca pela redução da desigualdade.” (A Gazeta, 24/01/2023).
Previmos à época que o governo não iria fazer a lição de casa, e não o fez. Agora, para acertar as contas, isso vai sair à custa do trabalhador brasileiro de base. Segundo as novas regras, o aumento do salário mínimo será a inflação mais o PIB limitado a 2.5%. Para o ano que vem, por exemplo, com o PIB previsto de 3,2%, o trabalhador receberá somente 2,5%. Os outros 0,7% ficam com o governo. Não é imposto, mas dá no mesmo.