Sair
Assine
Sair
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Economia

Entenda a novela do salário mínimo

Há no governo uma clara cisão política quanto ao tema. A área técnica diz ser impossível, por ora, majorar para R$ 1.320, valor defendido pela área mais política e não envolvida diretamente ou, ao que parece, despreocupada com as contas públicas

Publicado em 24 de Janeiro de 2023 às 00:05

Públicado em 

24 jan 2023 às 00:05
Cássio Moro

Colunista

Cássio Moro Cássio Moro
Segundo a Medida Provisória 1.143/2022, da lavra do ex-presidente da República Jair Bolsonaro, o salário mínimo mensal é de R$ 1.302 desde 1º de janeiro. Mas, afinal, não seriam R$ 1.320, conforme promessa de campanha do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva?
Não. A confusão reside no fato de o Congresso, com influências da equipe de transição do atual governo, ter previsto no PLN 32/2022, projeto de lei orçamentária anual para 2023, o valor de R$ 1.320, conforme queria o promitente candidato à Presidência.
Entretanto, assim que a equipe econômica da atual gestão assumiu o poder, percebeu o rombo nas contas públicas e a impossibilidade, neste início de ano, de majorar o piso geral das categorias de base. Tanto o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, quanto o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, foram categóricos em afirmar que, ao menos até 1º de maio de 2023, o valor continuará sendo aquele definido pela gestão antecedente.
Há no governo uma clara cisão política quanto ao tema. A área técnica diz ser impossível, por ora, majorar para R$ 1.320, valor defendido pela área mais política e não envolvida diretamente ou, ao que parece, despreocupada com as contas públicas.
Importante deixar claro que o aumento de R$ 1.212 (valor de 2022) para R$ 1.302 já representou um ganho além da inflação, algo jamais feito pelo governo anterior que, até então, apenas reajustava o valor do mínimo conforme o índice inflacionário. Havia, portanto, mero reajuste salarial, sem qualquer aumento real. Já de 2022 para 2023 o mínimo subiu 7,43%, contra uma inflação de 5,8%. Se Bolsonaro tivesse mantido seu histórico, o mínimo de 2023 seria de meros R$ 1.282.
Definir reajustes e aumentos reais do salário mínimo é tarefa árdua para qualquer administrador. Não bastasse verificar o impacto nas contas públicas, haja vista uma série de gastos diretos do erário com previdência e mão de obra, é preciso não interferir sobremaneira no mercado de trabalho, na iniciativa privada. Isso porque se o aumento for demasiadamente superior à inflação, gerar-se-á informalidade e desemprego.
Governo prevê salário mínimo de R$ 1.039,00 em 2020
Crédito: Thinkstock
Doutro lado, se o reajuste for diminuto, sequer acompanhando a inflação, obter-se-á um aumento na desigualdade e empobrecimento da classe operária de base e, por sua vez, redução da atividade econômica (lembremos que o trabalhador que vive com salário mínimo não tem excedente de renda, sendo o todo convertido em consumo).
Em seu histórico de administração do país, o PT teve uma importante política de valorização do salário mínimo. Em regra, em suas administrações passadas, a cada ano o valor subia em percentual equivalente à inflação mais o crescimento do PIB. Essa sistemática permitiu um ganho real aos trabalhadores, sem a gerar de informalidade.
A partir de 2015, com reflexos em 2016, com os índices de crescimento do mercado despencando, o governo se limitou a proceder apenas o reajuste inflacionário para os trabalhadores de base, o que ocorreu até 2022. Muitos daqueles que recebiam pisos convencionais acima do mínimo nem sequer tiveram reajustes desde a crise sanitária de 2020, tornando-se mais pobres.
Atualmente, embora com baixo índice de desemprego (beirando os 9%), a renda do trabalhador ainda se mostra deficitária. E boa dose disso se deve às novas atividades, à gig economy, que, sendo profissões disruptivas, sem regulamentação ou organização coletiva, fazem com que trabalhadores possuam condições precárias de sustento e sobrevivência.
Enfim, embora sem muito respaldo econômico ou contábil, a promessa de aumento do mínimo para R$ 1320 pode ser uma opção política a partir de maio, mas desde que o governo faça o que tenha que ser feito: corte gastos (o que duvidamos que ocorra) e faça a reforma fiscal com o máximo de brevidade (sem maior otimismo quanto a isso).
Caso a lição de casa seja feita, é possível, a médio prazo, esperar uma nova política permanente de valorização do salário mínimo, melhor bem-estar do trabalhador brasileiro e efetivo desenvolvimento social na busca pela redução da desigualdade.

Cássio Moro

Cássio Moro Cássio Moro

É juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduação e pós-graduação da FDV. Neste espaço, busca fazer uma análise moderna, crítica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Mulher desaparecida é enterrada dentro de casa em São José do Calçado
Suspeito refez piso de casa para esconder corpo da companheira no Sul do ES
Por que alguns casais competem em vez de torcer um pelo outro?
Quando o amor encontra a inveja: por que alguns casais competem em vez de torcer um pelo outro?
Imagem de destaque
Inteligência artificial da dona do ChatGPT se rebela e faz ataque hacker: preocupante ou golpe publicitário?

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados