Diz um ditado popular que é melhor prevenir do que remediar. O ditado deveria servir de guia às políticas relacionadas ao Super El Niño, previsto para o segundo semestre.
Na coluna de abril, expliquei que o El Niño é um fenômeno na região equatorial do Oceano Pacífico próxima à América do Sul, em que a água do oceano fica anormalmente mais quente, causando o enfraquecimento dos ventos que sopram na direção da Linha do Equador, com efeitos climáticos severos em todos os continentes.
No Brasil, o El Niño tende a concentrar chuvas na região Sul e provocar secas e calor no estante do país. Ele causa diversos impactos sobre a saúde humana, agricultura, enchentes, secas e desastres que abalam a vida do país. Vou me deter sobre um deles como exemplo, a saúde.
O estudo inédito "Saúde e ondas de calor: mortalidade, morbidade e implicações para o SUS no Brasil", lançado em junho de 2026 pela Fiocruz e Universidade Federal da Bahia, em iniciativa do Ministério da Ciência e Tecnologia, MCT, revelou que o calor extremo já representa uma crise consolidada de saúde pública. O estudo é importante já que entre 76% e 84% da população depende hoje exclusivamente do SUS.
Ele estima que as ondas de calor tenham causado 120 mil mortes entre 2000 e 2019. Embora o relatório foque o quadro nacional, e não nos estados, estudos anteriores apontam o Espírito Santo como o estado com o maior impacto de temperaturas extremas no país, com picos de até 70% de aumento do risco de morte.
O calor extremo desencadeia várias doenças que requerem pronto atendimento, como as cardiovasculares, respiratórias, infecção urinária, insuficiência renal, das glândulas hormonais e aquelas que alteram o metabolismo do corpo.
Os grupos mais vulneráveis, por idade, são as crianças com menos de 10 anos, principalmente em consequência de diarreias, e pessoas com mais de 60 anos, devido às demais doenças citadas.
O risco de morte também não é igual em termos sociais. A desigualdade aumentou o risco sobretudo para os grupos mais pobres e vulneráveis, que vivem em casas piores, bairros mais quentes, com menos acesso a ar-condicionado, mais exposição ao trabalho ao ar livre e maior dificuldade para se proteger.
Isso indica que, embora o calor atinja todo o país, a chance de morrer em um evento extremo é maior para as crianças, os mais velhos e os de menor renda.
Diante desse quadro, o relatório indica a necessidade de reformulação de diversas políticas na área de saúde, como integração de dados meteorológicos aos sistemas de vigilância epidemiológica, aumento da capacidade dos Serviços de Emergência do SUS, revisão de estoques de insumos para hidratação, climatização das instalações de saúde, fortalecimento de planos estaduais e municipais de contingência para calor extremo e implementação de campanhas de comunicação sobre os riscos climáticos para conscientizar a população e orientá-la sobre cuidados básicos.
Beber água, dar preferência a alimentação leve, evitar exposição ao sol, buscar sombra sempre que possível, evitar permanecer em locais fechados sem ventilação e buscar auxílio médico mediato se passar mal... esses são as principais ações preventivas em nível pessoal.
O que citei foram apenas dados de um diagnóstico do MCT. Implementar as medidas é
um desafio urgente para o governo federal, estados e municípios.
Abordei a área de saúde como exemplo do dever de casa que temos que fazer para nos proteger do Super El Niño, que tornará mais dramáticos os impactos em várias áreas.
Isso significa que em cada área é preciso ter um diagnóstico e usá-lo para identificar fragilidades, e medidas efetivas imediatas para melhorar a prevenção. Não há tempo a perder. Nossa população tem pressa.