O Instituto Terra, criado por Sebastião e Lélia Salgado, é um símbolo de resistência inspiradora em várias dimensões.
A começar pela resistência psicológica à barbárie humana. Exaurido pela cobertura fotográfica dos grandes êxodos e massacres provocados pela fome e guerras como as da África, em que capturou o limite do sofrimento humano e deu-lhe visibilidade internacional, a dor de Tião superou o que podia suportar e o fez ter uma crise de saúde e refugiar-se no sul da Bahia.
Mas como os pântanos, que são vistos por muitos como “lamaçal sujo”, embora deem flores e tenham grande importância ecológica, as crises emocionais também podem nos ajudar a fortalecer e crescer. Uma catarse de profundidade psicanalítica ajudou-o a resistir e restabelecer-se com a ajuda da ideia da capixaba Lélia, sua companheira de vida inteira, de restaurar a vegetação da fazenda Bulcão, que fora do seu pai, localizada em Aimorés, na divisa de Minas com o Espírito Santo.
Começava ali a primeira fase da resistência à destruição ambiental, que marcou grande parte da vida dos dois. Restaurar a vegetação é um conceito aparentemente simples, mas complexo. Não envolve apenas plantar mudas em terras desmatadas, mas devolver um ecossistema degradado à condição mais próxima possível do seu estado original, em termos de estrutura, funcionamento e biodiversidade.
E isso só pode ser feito com apoio da ciência, o que demandou que criassem, em 1998, o Instituto Terra, com todas as estruturas para isso como o Viveiro, o Centro de Educação para Restauração Ambiental e o Núcleo de Estudos em Restauração Ecossistêmica.
Isso demandou organização e mobilização, como o Conselho do Instituto, atualmente presidido pelo filho Juliano Salgado, uma estrutura de colaboradores, sob a coordenação de um diretor-executivo, e o engajamento de parceiros e voluntários.
Com a área original de 709 hectares já quase completamente restaurada, com o plantio de 2,3 milhões de árvores de ao menos 80 espécies, o Instituto Terra adquiriu terras no entorno, ampliando sua área para mais de 2,3 mil hectares, que serão igualmente objeto de restauração.
A experiência acumulada levou o Terra a uma segunda fase de resistência à degradação ambiental, com o início em 2010 do Programa Olhos D´Água, com foco na recuperação de nascentes em propriedades rurais da Bacia do Rio Doce, que consistia em cercá-las e restaurar a vegetação nativa – para evitar que o gado as compactasse e impedisse a infiltração da água.
Em 2023, este programa foi expandido com o Programa Terra Doce, que agregou os trabalhos de recuperação de áreas vizinhas às nascentes para que a água pudesse infiltrar-se, assim como de restauração vegetal de áreas próximas aos rios e assistência técnica aos produtores para a adoção de sistemas de produção agrícola e de gado sustentáveis.
A partir de 2023, esse programa vem alcançando 28 municípios em MG e ES, o que é fundamental para a preservação deste trecho da bacia, e que por ser completo deveria servir de exemplo para a implantação de programas similares nos demais trechos do Doce e outros rios tão castigados.
Uma de minhas maiores emoções foi, quando em um período em que fui membro do Conselho do Terra, ter visitado um produtor rural que havia antes abandonado sua propriedade por falta de água e que, após ter recebido assistência técnica do Instituto, voltou a morar e produzir em sua propriedade, possibilitando ainda que abastecesse alguns vizinhos abaixo, que puderam fazer como ele o caminho de retorno às suas terras. São cenas que humanizam a importância do trabalho do Terra, o que serve de inspiração a outras iniciativas, no próprio Doce e outros rios.
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