Tanto o El Niño como seu oposto La Niña têm nomes poéticos que despertam sentimentos de acalanto e carinho, embora sejam fenômenos climáticos que geram consequências impactantes para o planeta, já tão castigado por outros eventos, como as guerras.
E no biênio 2026/2027 tais consequências poderão ser particularmente agudas, como alertou em abril o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas, de que deveremos ter um Super El Niño, que pode significar um novo recorde absoluto de calor no mundo, superando 2024, ano mais quente da História, além de desastres e impactos na agricultura, água e energia.
Em uma triste ironia, o nome El Niño é uma referência ao Menino Jesus, "Niño Jesús" em espanhol, dado pelos pescadores do Peru e Equador, que notavam, perto do Natal, uma corrente de água mais quente aparecendo na costa. O termo La Niña só foi criado bem depois, como “oposto” de El Niño, para designar a fase de resfriamento do mesmo sistema oceânico-atmosférico.
Mas afinal, o que são El Niño e La Niña?
São fases opostas de um mesmo fenômeno na região equatorial do Oceano Pacífico próxima à América do Sul, em que a água do oceano fica anormalmente mais quente (El Niño) ou mais fria (La Niña) que o normal, causando o enfraquecimento ou fortalecimento dos ventos que sopram na direção da Linha do Equador.
Como ambos alteram a circulação da atmosfera em grande escala, seus efeitos aparecem em todos os continentes, incluindo os mais distantes, como Ásia e Oceania, embora em cada lugar de forma distinta.
Os últimos episódios foram um El Niño forte entre meados de 2023 e o outono de 2024, seguido por um La Niña curto em 2025–início de 2026. No Brasil, cada um deles trouxe impactos no regime de chuvas e temperatura, afetando a população e a economia.
Em termos de chuvas, eles têm um padrão já conhecido: El Niño costuma concentrar chuva e enchentes no Sul e diminuir chuvas em partes do Norte/Nordeste, enquanto La Niña faz o oposto, favorecendo secas no Sul e mais chuva no Norte e Nordeste.
E em termos de temperatura, El Niño tende a deixar o Brasil mais quente em boa parte do ano, enquanto La Niña favorece mais incursões de ar frio e ligeiro resfriamento médio em várias regiões.
O El Niño iniciado em 2023 foi marcante para os brasileiros, principalmente em função das chuvas no Rio Grande do Sul, com acumulados que em todo o Estado superaram 2.000 mm no ano, tendo atingido em Passo Fundo mais do que o triplo da média histórica anual. Em compensação, os acumulados de chuva ficaram próximos ou até bem abaixo da média em grande parte das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste do Brasil, tendo o maior déficit sido em Mato Grosso, um dos berços do agronegócio.
Em termos de temperatura, ficaram bem acima da média em quase todo o país, principalmente no Nordeste, mas também no Centro-Oeste e Sudeste.
Essas variações afetaram não apenas a população, mas também a economia. Um dos setores mais afetados foi a agricultura. O El Niño de 2023 teve influência negativa do clima sobre as culturas de verão, com acentuada redução da produção.
Há um consenso crescente de que o aquecimento global está aumentando a intensidade do El Niño e La Niña, e com isso a severidade dos extremos, como secas, enchentes e ondas de calor, causando maior número de mortes e prejuízos à economia.
O risco de termos neste ano e no próximo um El Niño forte ou até um super El Niño deveriam nos deixar em alerta, preparando-nos para reduzir seu impacto, enquanto o combate às mudanças climáticas patina em um mundo cada vez mais conturbado e ameaçador.