Passo praticamente todos os dias pela Rua Doutor Antônio Basílio, em Jardim da Penha. Nos últimos dias, surpreendi-me com a poda abrupta de praticamente toda a copa de castanheiras frondosas que ladeavam o logradouro, abrigo de aves e fonte de sombra em dias quentes.
O que restou foi um cenário desolador de troncos nus, como estacas fincadas no asfalto, que mais parecem monumentos à falta de planejamento urbano do que parte de um ecossistema vivo.
Não se trata aqui de defender a ausência de manejo, que deve se dar de maneira regular e técnica. É inegável que árvores de grande porte, como as castanheiras, precisam de intervenções periódicas para evitar que seus galhos interfiram na rede elétrica, danifiquem telhados ou coloquem em risco a segurança de pedestres e motoristas, especialmente em um período de chuvas fortes e ventanias como o que estamos vivendo.
A justificativa da Prefeitura de Vitória, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, de que a ação visou “compatibilizar o porte das árvores com as condições do espaço urbano” e reduzir riscos é, em tese, válida e necessária.
O problema reside na brutalidade e na forma desproporcional com que essa poda foi executada. O que se viu na Rua Doutor Antônio Basílio e em outras vias do bairro não foi manejo, mas uma verdadeira decapitação arbórea. Deixar apenas o tronco, sem qualquer galho lateral ou brotação que permita a recuperação da copa, não parece ser adequado, mesmo porque praticamente sufoca a capacidade fotossintética.
A ironia trágica está no timing da intervenção pelo município. Estamos às vésperas do verão, agravado pelo fato de que os meteorologistas já alertam para a chegada de um El Niño severo, que promete elevar ainda mais as temperaturas. As árvores retiradas de cena forneciam uma barreira natural contra o calor, reduzindo a sensação térmica em vários graus e criando microclimas agradáveis para os moradores e frequentadores da região.
Agora, os pedestres e moradores da Rua Doutor Antônio Basílio enfrentarão o asfalto escaldante e o sol a pino sem qualquer alívio. A sombra que se foi não era um mero capricho estético ou um enfeite, senão um serviço ambiental gratuito e essencial.
A arborização da nossa cidade não pode ter um efeito meramente decorativo ou ser tratada como um problema a ser eliminado na primeira dificuldade. As árvores são infraestrutura verde, filtrando poluentes, absorvendo água da chuva e mitigando o efeito das ilhas de calor urbanas.
A escolha das espécies e o manejo devem ser pautados por essa função de propiciar sombra abundante e reduzir a temperatura do entorno.
A prefeitura alega que a opção foi pela permanência das árvores, evitando a supressão. No entanto, preservar o tronco sem a copa não é preservar a árvore, mas condená-la a uma existência vegetativa e inútil para a cidade.
É preciso que a Secretaria Municipal de Meio Ambiente reavalie urgentemente esses protocolos para que podas drásticas como essa não sejam a regra, mas a exceção, restritas a casos de risco iminente de queda.