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Crime em Cariacica

Quando um PM mata inocentes, o Estado falha

O que torna este novo crime ainda mais revoltante e emblemático para a segurança pública capixaba é o contexto de reincidência monitorada pelo Estado

Públicado em 

10 abr 2026 às 03:15
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

Na madrugada de julho de 2022, a morte de uma mulher trans, conhecida como Lara Croft, no bairro Alto Lage, em Cariacica, já suscitava dúvidas relevantes acerca da versão oficial apresentada e, sobretudo, quanto à proporcionalidade do uso da força por agentes estatais.
Lara foi alvejada por cinco disparos de arma de fogo durante abordagem policial, diante de uma suposta ameaça com uma lâmina de barbear aos militares, destoando totalmente do dever de uso progressivo da força e do próprio sentido de legalidade que deve orientar a atuação policial.
Passados quase três anos, o caso ressurge sob contornos ainda mais graves. Luiz Gustavo Xavier do Vale, o mesmo policial militar investigado por aquele episódio, figura agora como autor de um duplo homicídio, ocorrido em plena luz do dia, vitimando duas mulheres em via pública, também em Cariacica. As imagens divulgadas revelam uma ação que, ao menos em análise inicial, aparenta dissociar-se completamente de qualquer parâmetro de necessidade, moderação ou técnica policial.
Videomonitoramento
Imagens de residência na rua em que o crime ocorreu, em Cariacica Crédito: Videomonitoramento
O que torna este novo crime ainda mais revoltante e emblemático para a segurança pública capixaba é o contexto de reincidência monitorada pelo Estado. Após o assassinato de Lara Croft, o militar foi afastado das ruas, mas não das funções internas da corporação. Ao que tudo indica, continuou armado, fardado e, como demonstrado pelo vídeo que registrou a execução, agindo sob o manto do poder de polícia, mesmo respondendo a um processo judicial por homicídio.
A versão apresentada para este novo episódio (uma desavença familiar envolvendo a ex-esposa do PM e uma briga de vizinhos por conta de ar-condicionado) não atenua a barbárie. Na verdade, pelo contrário, agrava a culpa, inclusive, a institucional. A morte do casal de mulheres expõe a falência dos mecanismos de controle interno da Polícia Militar.
Um agente público denunciado e processado por um homicídio com indícios de execução e transfobia não deveria ter acesso a uma arma de fogo ou estar em posição de atender qualquer tipo de ocorrência. Sua permanência em atividade administrativa, mas com porte de arma, revelou-se uma sentença de morte ambulante.
Há, ainda, um outro detalhe logístico e político que permeia a tragédia: a ausência de câmeras corporais. Em 2025, o Governo do Estado do Espírito Santo anunciou a contratação de até 4,8 mil câmeras para as fardas dos militares. Entretanto, ao observarmos o vídeo do crime, ou mesmo a narrativa do caso Lara Croft, fica evidente que tais equipamentos não chegaram à ponta da linha. O único registro disponível é o de câmeras de segurança privadas ou de celulares de testemunhas aterrorizadas.
A gravidade dessa omissão encontra respaldo em dados oficiais. Relatório do Ministério da Justiça e Segurança Pública é categórico ao afirmar que as câmeras corporais reduzem a letalidade policial e o uso desproporcional da força. Elas protegem o cidadão contra o abuso de autoridade, mas também protegem o bom policial de falsas acusações. Se o Espírito Santo tivesse cumprido o prometido, talvez a lente de uma bodycam inibisse o ímpeto assassino, ou, no mínimo, teríamos a verdade inconteste dos fatos.
A morosidade de uma resposta estatal satisfatória permitiu que um militar investigado por homicídio permanecesse armado, enquanto o Executivo falha em implementar a tecnologia mais básica de transparência e proteção. Daniele e Francisca pagaram com a vida pela inércia do poder público e pela cultura da impunidade que insiste em tratar militares que delinquem como desviados de conduta recuperáveis.
A reincidência do militar não é apenas um caso de polícia ou outro caso isolado. É a prova cabal de que o Estado do Espírito Santo falhou em proteger seus cidadãos daqueles que deveriam defendê-los. Exige-se, mais do que nunca, uma resposta firme do Judiciário e a instalação imediata das câmeras corporais. Qualquer servidor que delinque deve ser responsabilizado, ainda mais quando o suspeito é agente de forças de segurança pública.

Caio Neri

E graduado em Direito pela Ufes e assessor juridico do Ministerio Publico Federal (MPF). Questoes de cidadania e sociedade tem destaque neste espaco.

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