Os colegas do cabo da Polícia Militar Luiz Gustavo Xavier do Vale, que atirou e matou um casal de mulheres em Cariacica, também podem ser responsabilizados. Segundo o professor e mestre em Segurança Pública Henrique Herkenhoff, os policiais não deveriam ter acompanhado o militar após ele se acionado pela ex-esposa, em meio a uma briga entre vizinhas.
O caso aconteceu na manhã de quarta-feira (8). A ex-esposa do cabo se envolveu em uma discussão com as vizinhas Daniele Toneto e Francisca Chaguiana Dias Viana e, durante o conflito, ligou para ele. Luiz Gustavo — que estava afastado das atividades nas ruas após ter matado uma mulher trans em 2022 — foi até o local, no bairro Cruzeiro do Sul, fardado e armado, acompanhado de colegas em duas viaturas. Ao chegar, atirou contra as duas mulheres (veja no vídeo acima).
"Os colegas que foram apoiá-lo, se não estavam sob comando adequado, também estavam cometendo irregularidades que precisam ser apuradas pela Corregedoria e pelo Ministério Público. Se a ex-esposa de um policial tem um problema, ela deve acionar o Ciodes (Centro Integrado de Operações de Defesa Social), como qualquer cidadão. O policial que atender à ocorrência precisa agir com isenção, não para apoiar um colega e pressionar ainda mais", declarou Henrique Herkenhoff, em entrevista ao telejornal Bom Dia Espírito Santo.
É inadmissível que um servidor público utilize o cargo para resolver seus problemas pessoais
Afastado das ruas, ele poderia estar armado?
De acordo com o comandante-geral da Polícia Militar do Espírito Santo, coronel Ríodo Rubim, Luiz Gustavo estava afastado do policiamento ostensivo e atuava internamente enquanto respondia ao processo pela morte de uma mulher trans conhecida como Lara Croft, no bairro Alto Lage, também em Cariacica. Nesse período, exercia a função de guarda em uma companhia da corporação, em Itacibá.
Segundo Herkenhoff, nessa função o policial poderia portar arma, mas não deveria ter deixado o posto. “Mesmo que não tivesse cometido os homicídios, ele já estaria errado, praticando infrações gravíssimas, passando por improbidade administrativa e infrações administrativas graves e crime militar por ter abandonado o posto”, explicou.
Policial pode ser demitido
Em entrevista coletiva, o coronel Ríodo Rubim afirmou que o caso será investigado e que Luiz, que no momento está detido, pode ser demitido. "Em até 24 horas nós apresentaremos à Justiça e a Justiça vai dar o melhor encaminhamento. Ele pode ser demitido, mas aí quem decidirá será a Justiça. A parte que cabe à Polícia Militar está sendo realizada com todo o rigor que o caso merece", disse.
Discussão teria começado por ar-condicionado
A ex-esposa do policial e as duas vítimas moravam no mesmo prédio, em andares diferentes, e já tinham histórico de desentendimentos. Na quarta-feira, segundo apuração da TV Gazeta, a discussão teria começado por causa de um ar-condicionado.
A mulher relatou ainda que as vizinhas teriam ofendido seu filho autista, de 8 anos, o que a levou a ligar para o ex-marido. Ela admitiu que desceu com uma faca durante a confusão. "Quando desci com a faca, elas me jogaram contra a parede, me agrediram e começaram a me bater", afirmou. Ela não quis se identificar.
Uma testemunha confirmou o que mostram imagens de câmeras de segurança. “Ele já chegou com a arma em punho, subiu e atirou nas meninas na calçada”, disse, também sem se identificar. “Não é porque ele é policial que poderia agir assim. Tirou a vida de duas mulheres. Poderia ter resolvido de outra forma. No bairro, todos veem isso como abuso.”
"Conduta inadmissível", diz governador
O governador Ricardo Ferraço se manifestou sobre o caso ainda na noite de quarta-feira. "Manifesto minha profunda indignação diante do duplo homicídio ocorrido hoje (quarta-feira) em Cariacica. Trata-se de uma conduta inadmissível, que não representa, em hipótese alguma, a postura da nossa Polícia Militar. Não toleramos esse tipo de comportamento dentro da corporação", publicou nas redes sociais.
Ele também destacou que o caso será encaminhado à Justiça comum, por não se tratar de crime militar. Ainda assim, a Corregedoria da PM irá investigar possíveis infrações militares cometidas pelo cabo ao deixar o posto acompanhado de outros policiais.