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Acidente no valão

Quando os heróis são aqueles que alguns tacham de vilões

Poucos teriam o ímpeto e a coragem de arriscar a própria vida, jogando-se num verdadeiro esgoto a céu aberto, para salvar a vida de um desconhecido

Publicado em 18 de Abril de 2025 às 02:00

Públicado em 

18 abr 2025 às 02:00
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

Na última segunda-feira (14), ao sair de um estacionamento, acidentalmente, um motorista acabou caindo num valão em Vila Velha e as imagens registraram a intensa mobilização de pessoas em situação de rua tentando socorrer a vítima, que ficou presa ao carro submerso. Apesar dos esforços dessas pessoas, o motorista acabou falecendo. Mas esse trágico acontecimento deixa uma lição profunda.
Os moradores em situação de rua, pessoas que não raramente são tratadas como se fossem invisíveis e são vítimas das mais variadas formas de violência e discriminação, deram um grande exemplo de empatia e amor ao próximo. Poucos teriam o ímpeto e a coragem de arriscar a própria vida, jogando-se num verdadeiro esgoto a céu aberto, para salvar a vida de um desconhecido, sem nenhuma outra pretensão, senão a de prestar socorro a um necessitado.
Em meio às mazelas impostas àqueles que enfrentam os riscos de viver ao relento, saltou aos olhos o sentimento de humanidade que permeia a conduta dessas pessoas. A ajuda veio justamente daqueles que alguns políticos e setores da sociedade tentam hostilizar ou afastar das áreas mais abastadas das cidades, já que, para eles, as pessoas em situação de rua oferecem risco à segurança e ao bem-estar dos demais cidadãos.
Há não muito tempo, o projeto de lei municipal nº 57/2023, pretendia proibir que moradores em situação de rua dormissem, justamente, nas ruas da capital capixaba. No início do mês, um micro-ônibus fretado pela Prefeitura de Cabo Frio (RJ) abandonou diversas pessoas em situação de rua no município de Linhares. E esses são apenas alguns exemplos de tentativas frustradas e abomináveis de limpeza social, como se a população em situação de rua fosse uma sujeira a ser empurrada para debaixo do tapete no afã de transmitir uma falsa mensagem de higienização.
E não se trata de fato restrito ao Espírito Santo, a ponto de, em 2022, ter sido sancionada a Lei Padre Júlio Lancellotti (lei nº 14.489/2022), que proíbe a "arquitetura hostil" em espaços públicos.
Resgate na Praia da Costa após carro cair em valão embaixo da Terceira Ponte
Resgate na Praia da Costa após carro cair em valão embaixo da Terceira Ponte Crédito: Leitor A Gazeta
Em todo o país, muitas pessoas, órgãos públicos e até mesmo igrejas têm adotado mecanismos e táticas para impedir a aproximação e a permanência de moradores de rua em locais públicos. Em diversas cidades, além das mensagens de desincentivo à doação de alimentos e donativos à população em situação de rua, tem sido criada uma “arquitetura antipobre”, inserindo-se, na arquitetura de diversas construções e equipamentos públicos, obstáculos como pedras, grades, cacos de vidro e espetos de ferro para afastar pessoas em situação de rua.
Num cenário de robustecimento do abismo social e num país marcado pela escalada do ódio, pela aporofobia e por um crescente déficit de empatia, os heróis da vez foram aqueles que alguns tacham de vilões.

Caio Neri

E graduado em Direito pela Ufes e assessor juridico do Ministerio Publico Federal (MPF). Questoes de cidadania e sociedade tem destaque neste espaco.

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