Na última segunda-feira (14), ao sair de um estacionamento, acidentalmente, um motorista acabou caindo num valão em Vila Velha e as imagens registraram a intensa mobilização de pessoas em situação de rua tentando socorrer a vítima, que ficou presa ao carro submerso. Apesar dos esforços dessas pessoas, o motorista acabou falecendo. Mas esse trágico acontecimento deixa uma lição profunda.
Os moradores em situação de rua, pessoas que não raramente são tratadas como se fossem invisíveis e são vítimas das mais variadas formas de violência e discriminação, deram um grande exemplo de empatia e amor ao próximo. Poucos teriam o ímpeto e a coragem de arriscar a própria vida, jogando-se num verdadeiro esgoto a céu aberto, para salvar a vida de um desconhecido, sem nenhuma outra pretensão, senão a de prestar socorro a um necessitado.
Em meio às mazelas impostas àqueles que enfrentam os riscos de viver ao relento, saltou aos olhos o sentimento de humanidade que permeia a conduta dessas pessoas. A ajuda veio justamente daqueles que alguns políticos e setores da sociedade tentam hostilizar ou afastar das áreas mais abastadas das cidades, já que, para eles, as pessoas em situação de rua oferecem risco à segurança e ao bem-estar dos demais cidadãos.
Há não muito tempo, o projeto de lei municipal nº 57/2023, pretendia proibir que moradores em situação de rua dormissem, justamente, nas ruas da capital capixaba. No início do mês, um micro-ônibus fretado pela Prefeitura de Cabo Frio (RJ) abandonou diversas pessoas em situação de rua no município de Linhares. E esses são apenas alguns exemplos de tentativas frustradas e abomináveis de limpeza social, como se a população em situação de rua fosse uma sujeira a ser empurrada para debaixo do tapete no afã de transmitir uma falsa mensagem de higienização.
E não se trata de fato restrito ao Espírito Santo, a ponto de, em 2022, ter sido sancionada a Lei Padre Júlio Lancellotti (lei nº 14.489/2022), que proíbe a "arquitetura hostil" em espaços públicos.
Em todo o país, muitas pessoas, órgãos públicos e até mesmo igrejas têm adotado mecanismos e táticas para impedir a aproximação e a permanência de moradores de rua em locais públicos. Em diversas cidades, além das mensagens de desincentivo à doação de alimentos e donativos à população em situação de rua, tem sido criada uma “arquitetura antipobre”, inserindo-se, na arquitetura de diversas construções e equipamentos públicos, obstáculos como pedras, grades, cacos de vidro e espetos de ferro para afastar pessoas em situação de rua.
Num cenário de robustecimento do abismo social e num país marcado pela escalada do ódio, pela aporofobia e por um crescente déficit de empatia, os heróis da vez foram aqueles que alguns tacham de vilões.