Correção
28/01/2022 - 3:18
Versão anterior da coluna não trazia a informação de que a Prefeitura de Vitória lançou, no último dia 14, o edital da primeira fase do projeto "Nova Orla da Grande São Pedro". O edital, segundo a prefeitura, abrange o litoral da Ilha de Vitória, desde o Parque Tancredão até o Bairro Jabour e tem por objetivo recuperar a região, com a requalificação de espaços públicos. O colunista acrescentou a informação no texto abaixo
Na última semana, a Prefeitura de Vitória anunciou um projeto de reurbanização da Curva da Jurema. Ao custo de pelo menos R$ 5 milhões, o município pretende, até 2023, instalar novas áreas verdes, nivelar ruas e o ampliar o calçadão já existente. Há não muito tempo, na mesma orla, um quiosque foi reformado para se tornar base da Polícia Militar e, ainda, especula-se um processo para impedir o acesso de ambulantes à praia.
Pode até ser coincidência, mas tudo isso ocorre em concomitância à construção de um condomínio de luxo em região privilegiada da Curva da Jurema, empreendimento que foi alvo de muitas críticas dado o impacto ambiental e a possibilidade de prejudicar a vista de pontos turísticos, como o Convento da Penha. Tanto é verdade que o Parque Municipal Cultural Reserva Vitória, citado como um “presente à cidade”, de presente não tem nada, trata-se de uma compensação ambiental pelos danos que o empreendimento tem o potencial de causar, mormente o impacto visual.
Assim, fica a impressão de que a Curva da Jurema será “reurbanizada” para ser, em verdade, elitizada, para não destoar do empreendimento com residências que vão de 177 a quase 500 m², por um preço milionário para quem quiser ser o novo morador do condomínio de luxo. Do contrário, o foco do investimento público deveria ser direcionado àquelas regiões da cidade que estão em situação precária, em especial num contexto de pandemia e de um verdadeiro caos nas unidades de saúde.
Enquanto investe-se mais em projetos de “reurbanização” de áreas mais favorecidas, como a Curva da Jurema, a Praia do Canto e a Rua da Lama, a Prefeitura deixa desguarnecidas as regiões mais periféricas da cidade. O projeto de reurbanização da Orla Noroeste, que é muito mais urgente. Será que essa escolha política tem relação com a população que habita tais bairros? Qual a razão do tratamento diferenciado? Os bairros mais nobres precisam de maiores investimentos públicos ou o raciocínio deveria ser o contrário?
Após a publicação deste artigo, a Prefeitura de Vitória nos procurou informando o lançamento, no último dia 14, do edital para a Orla Noroeste, ainda em fase de licitação. A despeito dessa correção que faço agora, a revitalização da Orla Noroeste é uma demanda antiga e urgente, que exige ação da administração. A população espera que, desta vez, a promessa saia efetivamente do papel com a atual gestão.
Na verdade, nem é preciso ir muito longe do miolo da Praia do Canto e Enseada do Suá para constatar a forma como o município trata de formas distintas suas próprias regiões e seus cidadãos. A Praia de Camburi, por exemplo, há tempos não é uma, mas duas. No trecho compreendido entre os bairros de Jardim da Penha e Mata da Praia a orla de Camburi recebe mais cuidados, os quiosques foram reformados e alguns deles até têm banheiros. Mas a realidade é diferente quanto se passa do aeroporto: de lá até o final de Jardim Camburi, parece se tratar de outra praia, completamente abandonada pelas autoridades!
Nesses momentos fica cada vez mais claro que, não raramente, os agentes políticos governam como se vivessem numa realidade à parte. Talvez porque não estejam inseridos na realidade da maioria da população e não dependam dos serviços públicos. Do contrário, aqueles que mais precisam do Estado seriam os mais prestigiados pelas políticas públicas.
A legitimidade de qualquer governante será maior à medida que forem os direitos que conseguir salvaguardar à população. Nesse sentido, não faz sentido tratar de forma diferente áreas de uma mesma cidade se não for para buscar que, em dado momento, as desigualdades históricas sejam, no mínimo, equilibradas em vez de recrudescidas.