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Saúde mental

BBB 23: “Vai se tratar” não é xingamento

Nesta edição, a fala de alguns participantes, como Cezar Black e Bruna Griphao — que insinuaram que outro deles, Ricardo Camargo, deveria “se tratar” —, gerou certo burburinho e foi interpretada como uma espécie de xingamento

Publicado em 03 de Março de 2023 às 00:15

Públicado em 

03 mar 2023 às 00:15
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

Bruna Griphao, do BBB23,  suspeita estar com piolho
Bruna Griphao, do BBB23 Crédito: Globo
No célebre livro “1984”, George Orwell especulava que, no futuro, a televisão também poderia nos ver. Na obra, os cidadãos eram retratados numa situação de vigilância constante pelas autoridades, que usavam das “teletelas” para espionar as pessoas. O personagem fictício “Grande Irmão” não poupava ninguém de sua vigilância.
O romance de Orwell é tão atual que parece ter sido escrito agora, entretanto, sua primeira publicação remonta a 1949, bem antes dos sucessivos avanços na área da comunicação e da escalada da internet. Inclusive, serviu de inspiração para o Big Brother Brasil, que está nas noites da TV Globo.
Nesta edição, a fala de alguns participantes, como Cezar Black e Bruna Griphao, que insinuaram que outro deles, Ricardo Camargo, deveria “se tratar”, gerou certo burburinho e foi interpretada como uma espécie de xingamento. Sem adentrar no mérito específico, creio que entender a fala como uma agressão é reflexo da forma pejorativa como ainda é levada a saúde mental. Quem nunca ouviu que “psiquiatra é médico de doido”?
Por isso, dizer para alguém ir se tratar não deveria ser tido como um xingamento. Pelo contrário, tratar da saúde mental deveria ser algo rotineiro, normal, afinal, não existe cérebro ou saúde mental perfeitos. Não há quem não precise trabalhar um outro aspecto e se amadurecer enquanto pessoa.
A bem da verdade, muitas vezes, é quem “se trata” que toma conhecimento dos pormenores de sua individualidade e de eventuais questões psicológicas ou transtornos psiquiátricos a serem adequadamente manejados. Tratar-se ajuda no processo de tomada de consciência.
Os tabus e o preconceito quanto à temática são resquícios que perduram dos tempos em que não se sabia como lidar com qualquer tipo de doença mental. Há não muito, a alienação mental, nos aspectos social e cultural, por não ser totalmente compreendida, era vista como possessão demoníaca. Atualmente, a despeito dos avanços na psiquiatria e na psicologia, ainda há quem associe os transtornos mentais à falta de Deus, o que é uma grande inverdade, preconceituosa.
“Ir se tratar”, como sinônimo de tratar da saúde mental, deveria fazer parte da rotina de cuidados de qualquer pessoa, principalmente nos tempos atuais. O bem-estar mental é um item cada vez mais indispensável e valioso.
Além disso, “ir se tratar” pode evitar que questões de saúde mental acabem indo parar nas esferas policial ou judicial, como ocorrido nesta semana, quando um homem com histórico de transtornos mentais não tratados, durante um suposto surto, teria agredido a própria mãe e sido levado ao presídio em vez de, antes, passar por análise num atendimento psiquiátrico de emergência.
Costumo pensar que “ir se tratar” ou fazer terapia ajuda a conviver melhor com aqueles que precisam fazer terapia e escolhem não “se tratar”. E você, já se tratou? Como andam os cuidados com sua saúde mental?

Caio Neri

E graduado em Direito pela Ufes e assessor juridico do Ministerio Publico Federal (MPF). Questoes de cidadania e sociedade tem destaque neste espaco.

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