Os atentados cometidos pelo adolescente de 16 anos há exata uma semana em duas escolas de Aracruz, que vitimaram quatro pessoas e deixaram outros feridos física e psicologicamente, devem acender o sinal de alerta para a questão armamentista e a escalada de movimentos neonazistas e fascistas. Antes restritos a outros países, ataques como os ocorridos em Aracruz têm se tornado mais frequentes no Brasil.
Quem, como eu, concluiu o ensino médio há menos de 15 anos, provavelmente nunca conviveu com o medo de ser vítima de atentados durante as aulas. Mas, o que mudou nos últimos anos a ponto de fazer tais tragédias notícias cada vez mais recorrentes?
Em primeiro lugar, chama atenção a mudança na dinâmica das relações sociais. Ao longo do tempo, a figura do professor foi sendo cada vez mais desprezada em vez de valorizada. Não é incomum que a autoridade do professor dentro da sala de aula seja, de forma contumaz, questionada e atacada não apenas por alguns alunos, mas, até pelos pais de alguns deles. Veja-se, por exemplo, que, nos últimos anos, setores mais conservadores tentam dissuadir que os professores realizariam ideologias tidas como indevidas dentro da sala de aula. Quando, na verdade, o papel do docente e da educação é possibilitar que os alunos tenham condições de, por si próprios, firmar suas escolhas e convicções com base nos mais amplos conhecimentos disponíveis.
Em segundo lugar, também é digna de atenção a questão da higidez mental. Diversas pesquisas e levantamentos mostram que o número de pessoas com problemas de ordem mental no Brasil tem crescido, sobretudo após o contexto da pandemia. Ainda que a inimputabilidade penal não seja consequência lógica e direta de todo e qualquer transtorno mental, fato é que muitos crimes poderiam ser evitados caso houvesse um incentivo maior à busca por cuidados com a saúde mental.
Em meio a esse cenário um tanto quanto caótico, nos últimos anos ocorreu uma ampla facilitação no acesso às armas de fogo, precedida de ampla campanha dos armamentistas no afã de convencer a sociedade de que armas seriam aliadas no combate à inquestionável violência e, até mesmo, pasmem, que as armas serviriam para “assegurar a democracia”.
O resultado disso pode ser visto nas inúmeras tragédias familiares de acidentes com armas de fogo e, até mesmo, em casos mais extremos, como nos atentados às escolas, em que armas legalizadas, que estavam sob a guarda e custódia de um policial militar, foram utilizadas por seu próprio filho para cometer a tragédia que chocou o Espírito Santo e o Brasil.
Ora bem, se nem um militar, que teoricamente tem amplo treinamento, conseguiu evitar que seu filho, menor de idade, tivesse fácil acesso às suas armas e com elas promovesse algo tão cruel, como imaginar que distribuir livremente armas à população seria algo seguro? Armas matam, por isso seu uso deve ser prioritário às forças de segurança pública e todas as liberações de porte e posse devem ser bem instruídas, sobremaneira no que diz respeito à avaliação psicológica do pretenso possuidor.
Se não bastasse, sobretudo nos últimos anos, com o recrudescimento de falas e comportamentos discriminatórios e intolerantes em geral, o clima de ódio alimentou de modo preocupante os movimentos neonazistas e fascistas no Brasil. Inclusive, voltando aos atentados em Aracruz, além de ter abandonado a escola com a anuência dos pais, o menor responsável pelos ataques ganhou o livro “Main Kampf” (de Adolf Hitler) de presente do próprio pai, segundo a polícia. O pai do menor, um tenente da PM, chegou a compartilhar a imagem da capa da publicação em sua rede social.
Por isso, parece ser importante relembrar a história e todas as atrocidades cometidas pelos movimentos nazistas e fascistas, por mais óbvio que seja. A lei já veda e pune a disseminação dessas práticas, sua aplicação deve ser rígida ante a gravidade da temática. Não é exagero preocupar-se com o neonazismo, já que muitos estão sendo cooptados pelas ideias.