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Atentados em escolas

Ataques em Aracruz e o crescimento do discurso de ódio no Brasil

O atirador de Aracruz incorpora em si e em seu ato terrorista toda a visão nazista de ser humano que se espalhou pelo país

Públicado em 

30 nov 2022 às 02:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Moradores em Aracruz colocam velas em frente à escola alvo de ataques
Moradores em Aracruz colocam velas em frente à escola alvo de ataques Crédito: Cristian Miranda
O ataque às duas escola em Coqueiral de Aracruz na sexta-feira da semana passada (25) deixou a todos em um estado de tamanha tristeza e indignação que não cabemos em nós mesmos, transbordamos em lágrimas, em ódio, em um sentimento de culpa por não sabermos como deixamos tudo isso acontecer sob a nossa guarda.
Estamos vivendo o recrudescimento de um discurso de ódio no Brasil desde 2013 que se pauta, paradoxalmente, num pressuposto ético contra a corrupção. A fim de combater o que chamam de falta de ética e corrupção, um enorme grupo de brasileiros acredita na regra do “vale-tudo”! Assim como no MMA, os defensores de uma conduta ética não corrompida que só vale para os outros e não para si mesmos, acreditam no uso de armas e da violência irrestrita para por fim (literalmente) aos seus inimigos.
Vale, portanto, prender, matar e executar aqueles que não atendem ao padrão moral estabelecido pela República de Curitiba, conhecida como Operação Lava Jato; operação essa que teria condenado e tirado de circulação todos os corruptos brasileiros. O problema está, hoje em dia, nos Tribunais Superiores, em especial no Supremo Tribunal Federal, que julgando Sergio Moro imparcial, anulou todas as condenações lavajatistas. Ou seja, nessa ética distorcida, o Supremo impede o restabelecimento de um Brasil ético.
Ora, se não mais podem confiar no sistema de Justiça, em especial em seu órgão máximo, criam subterfúgios para justificar o porte de arma para civis, o poder de matar indistintamente concedido a policiais (veja-se em São Paulo a eleição de candidato que prometeu retirar as câmeras de vídeo dos uniformes policiais), ou seja, pretendem transferir o poder judiciário para a mão de civis que consideram mais éticos, mais justos e mais corretos do que os Ministros do STF.
Esses civis, agora armados até os dentes, passam a ser os controladores da lei e da ordem no país. Aos seus líderes é concedido o poder de decidir quem é digno de viver, de ser respeitado, de ter um emprego formal, de estudar em universidades, enfim, de decidir sobre a sua própria forma de vida.
Por trás, porém, desse discurso sobre ética, está o racismo estrutural que permeia todas as instituições do país, forjado ao longo de 500 anos de escravização e opressão do povo negro no Brasil. A mesma nação que tolerou e aceitou a equiparação dos escravizados africanos a coisas, ganhou muito dinheiro e bens patrimoniais às custas do trabalho escravo, propõe agora a denegação do direito de viver a seus descendentes.
O hitlerismo, prática racista per se, “foi o primeiro projeto de remodelação biopolítica do planeta que se propunha a estabelecer critérios e formas de coabitação. Até chegar a decidir que todo um povo, o povo judeu, não deveria mais habitar o planeta” (Donatella di Cesare, "Estrangeiros Residentes"). Não deve causar espanto, então, ver que a filosofia por trás do ataque às escolas em Aracruz é justamente o nazismo hitlerista, cuja suástica está no uniforme usado pelo jovem atirador e o livro "Mein Kampf" estampado no Instagram de seu pai, policial militar.
Vejam, portanto, leitores, que não se trata aqui de um projeto de combate à corrupção, mas sim de um projeto biopolítico de poder que visa exterminar aqueles identificados como “raça impura”, não éticos o suficiente. Os patriotas são os que definem agora quem são os que devem viver e os que devem morrer, já que não acreditam mais no sistema republicano de divisão de poderes, em seus órgãos e no sistema de freios e contrapesos.
Foi exatamente a descrença ou o inconformismo no sistema republicano de Weimar que levou à quase totalidade dos cidadãos alemães a aceitar a tese da “raça impura” em 1933, quando elegem Hitler ao parlamento e, em 1934, quando aceitam a manobra que ele faz para unificar o cargo de presidente e o de chanceler alemão para criar um único cargo que seria o de Führer do III Reich alemão. Ou seja, desfaz-se a república recriando-se o império alemão, um sistema de governo no qual é possível atribuir a si mesmo todo o poder soberano. A divisão de poderes, o controle pelo judiciário e o equilíbrio institucional cai por terra e tudo é permitido, começa aqui a regra do vale-tudo.
O atirador de Aracruz incorpora em si e em seu ato terrorista toda a visão nazista de ser humano que se espalhou pelo país sob o nome de limpeza ética e combate à corrupção. É preciso que se inicie um debate profundo no Estado do Espírito Santo sobre a idolatria ao nazismo da parcela da população que se lança às ruas e às rodovias vestida de verde e amarelo lutando pelo fim da democracia, pela anulação das eleições e pela ditadura militar. E ainda, é necessário fazer campanhas esclarecedoras e de conscientização sobre as consequências dessa ideologia, as mortes e as atrocidades de que ela é capaz.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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