O Brasil de "Torto Arado" é o mesmo da lógica meritocrática e da abordagem tecnocrática à governança estatal, como retrata Itamar Vieira Junior em seu livro. Ele mostra de forma cortante o que há de pior, de desumano, de grotesco no Brasil profundo, é como se tivéssemos lendo "Grande Sertão: Veredas", de João Guimarães Rosa, com uma linguagem atualizada (sem exageros) e com um grande poder de síntese.
Mas o que o livro de Itamar Vieira tem a ver com a meritocracia perversa e as crises provocadas pelo próprio capitalismo? Segundo Michael J. Sandel em seu mais novo livro, "A Tirania do Mérito", "é a lógica meritocrática que hoje envenena nossa política e instiga a raiva populista". Ao contrário do que se poderia pensar, a meritocracia cria um clima de concorrência desleal na sociedade, ostentando e exaltando os bem sucedidos e humilhando aqueles que por seu próprio mérito não alcançaram honrarias e reconhecimento social.
Por outro lado, Sandel também reflete sobre os males causados por um estado guiado pelo globalização econômica e financeira. Essa governança tecnocrata está presente quando ouvimos discursos públicos nos quais se argumenta ser possível “terceirizar julgamentos morais e políticos para os mercados”, o que põe fim ao “sentido e [a]o propósito do argumento democrático”, ou seja, da própria democracia.
É justamente esse discurso tecnocrata que ainda dá um sopro de sobrevida ao atual governo federal, na esperança que um super ministro da Economia irá acalmar os mercados e garantir a estabilidade política no Brasil. É por isso que o Ministério da Economia deixou que os mercados decidissem o momento de comprar vacina ou não, se o país deveria adotar o isolamento social ou o lockdown, formando-se inclusive um gabinete paralelo (com participação de empresários famosos!) para decidir questões atinentes à saúde pública.
Terceirizou-se para os mercados o que deveria fazer parte do debate democrático com a participação da população brasileira.
Já o "Torto Arado", livro ganhador dos prêmios Oceanos e Jabuti no Brasil e Leya em Portugal, antes mesmo da pandemia que nos atacou a todos, ceifando vidas e nos atolando ainda mais numa crise de fome, dá conta de um país estacionado no tempo. O livro conta a história de trabalhadores negros cativos nos sertões profundos do país, onde escravidão se confunde com trabalho e capataz com gerente de fazenda.
Os milhares de trabalhadores em situação análoga à escravidão que (ainda) existem no Brasil em pleno 2021 são os perdedores da lógica meritocrática. São, por meio dessa retórica perversa, aqueles que não se esforçaram o suficiente para ser alguém na vida. Retórica perversa porque esquece todo o histórica de sequestro, abuso e usurpação da identidade do povo negro desde o Brasil Colônia.
Dados do Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça: Poder, Política e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia, com sede na Universidade de Berlim, revelam que 125,6 milhões de brasileiros estão, em razão da crise que se instalou durante a pandemia no Brasil, em situação de insegurança alimentar. Os dados da pesquisa foram coletados entre agosto e dezembro de 2020 e revelam que 59,3% da população brasileira vive nessa situação.
O discurso político da administração tecnocrata no Brasil de hoje visa somente acalmar aos mercados e fazer lucrar aqueles que sempre se beneficiaram de uma troca injusta entre capital e trabalho, são os negros, as populações indígenas e as mulheres negras, em especial, os que mais sofrem nesse estado de coisas injustas em que se vive aqui.
Fotos de pessoas revirando um caminhão de lixo por comida, mulheres idosas escravizadas em domicílios urbanos, filas para comprar pedaços de ossos para comer. Definitivamente a roda da história girou, girou, girou e girou para trás, bem para trás, no Brasil de Bolsonaro e Paulo Guedes.