ASSINE
Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes e da ANDHEP

Rebeca Andrade ajudou a mostrar que funk também é arte

A ginasta conseguiu dois feitos: ganhou duas medalhas olímpicas inéditas e mostrou para o mundo a arte da periferia brasileira

Publicado em 04/08/2021 às 02h00
Rebeca Andrade nas Olimpíadas de Tóquio
Rebeca Andrade nas Olimpíadas de Tóquio. Crédito: Gaspar Nóbrega/COB

Uma reportagem do G1, pela jornalista Gabriela Sarmento, de 29 de julho conta um pouco de como foi a escolha da música para a apresentação da fantástica ginasta brasileira, Rebeca Andrade, no solo em sua participação nas Olimpíadas de Tóquio. A busca pela música para a apresentação no solo é uma missão importantíssima; é a batida da música, afinal, que vai dar o tom da apresentação e, por que não, que vai embalar quem está assistindo também!

A junção de "Tocata e Fuga", de Bach, e "Baile de Favela" do paulistano MC João, foi de fato uma grande sacada. Quem não se emocionou quando ouviu a música instrumental ao ver Rebeca se apresentando em Tóquio?

Levar a favela para Tóquio e para o mundo é sem sombra de dúvidas uma das grandes conquistas de Rebeca nessas edições dos jogos olímpicos. A ideia de levar o funk para os jogos foi do coreógrafo da seleção brasileira de ginástica feminina, Rhony Ferreira, que segundo a reportagem do G1 ouviu pela primeira vez a música nos intervalos das competições nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016.

Foram o maestro Misa Junior e a produtora Angela Molteni que ficaram responsáveis por juntar as duas músicas que representam estilos musicais extremamente diferentes e realidades sociais completamente opostas. Para surpresa do próprio maestro, ainda segundo o G1, a união dos dois gêneros musicais “começou a soar muito homogênea, tem uma ligação, são tons menores, não teve tanto problema na mudança de ritmo e quando entrou o ritmo do funk deu um impacto maior ainda”.

De fato, quando o funk entra percebemos que a conexão entre nós e Rebeca se firma e quase que dançamos junto com ela em frente à televisão. Mas nem tudo são flores, depois da medalha de Rebeca começaram a vir as críticas sobre a letra da música "Baile de Favela", em especial pelo tom de violência sexual que a letra parece transmitir. Porém, análises feitas por estudiosas tanto do feminismo como do funk como fenômeno cultural insistem em dizer que a escolha da música não foi um erro.

Any Moraes, militante da Marcha Mundial de Mulheres e graduanda em Ciências Sociais, em coluna publicada no site brasildefators, no dia 31 de julho, nos lembra de outras músicas com conteúdo machistas normalizadas pela sociedade brasileira, como por exemplo, “Tua Cantiga” de Chico Buarque, “Bola dividida” de Zeca Baleiro, “Formosa” de Vinícius de Moraes e “Piranha” de Bezerra da Silva.

Segundo Any, se outras composições que ouvimos no nosso dia a dia trazem frases como “Ela é uma morena sensacional, digna de um crime passional”, de Zeca Baleiro, e pior ainda: “Eu só sei que a mulher que engana o homem merece ser presa na colônia, orelha cortada, cabeça raspada carregando pedra pra tomar vergonha”, de Bezerra da Silva, foram normalizadas em nossa cultura, porque a implicância com o funk de MC João?

Tamiris Coutinho, idealizadora e coordenadora de Comunicação do Coletivo Funk, graduada em Relações Públicas pela UERJ, com formação em música e negócios pela PUC-Rio, em coluna publicada pelo site Universo Uol, no dia 30 de julho, vai mais além e faz uma análise detalhada da letra da música Baile de Favela, verso por verso, para mostrar que a letra não faz apologia ao estupro nem sugere sexo sem consentimento, por outro lado, o texto reflete sim a manifestação cultural de uma parcela importante da população brasileira.

Seria diferente se a letra da música contivesse versos como “estupro é tabu”, já visto em outras composições musicais que nitidamente incentivam a prática do crime. Por outro lado, a música "Baile de Favela" reflete o que é a linguagem da periferia e nomeia os lugares onde os bailes funks começavam a despontar na periferia de São Paulo, na década de 1980.

Isso é o que o compositor MC João pretendia mostrar e consegue refletir em sua letra. Era o início do funk como movimento cultural (e social) no Brasil, e João não deixa de ter valor também por isso, por ter dado o pontapé inicial na divulgação da cultura da periferia.

Rebeca Andrade nos orgulha porque apesar de milhões de dificuldades foi para Tóquio e fascinou a todos, é “A preta da favela, filha de uma empregada doméstica, que é mãe solo, [que] conquistou uma medalha histórica nas Olimpíadas de Tóquio”. (Any Moraes)

Por tudo isso, e também por seu talento inegável, vão aqui os nossos parabéns para Rebeca Andrade: ganhou duas medalhas olímpicas inéditas e mostrou para o mundo a arte da periferia brasileira.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.