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Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes e da ANDHEP

O que a vitória de Kamala Harris representa para o Brasil?

Entrada da vice-presidente eleita na Casa Branca é muito simbólica para o momento atual em que vivemos, não só nos EUA, diante do aumento da ideologia supremacista branca e da extrema-direita

Publicado em 11/11/2020 às 04h00
Kamala Harris, vice eleita dos Estados Unidos, durante discurso em Delaware
Kamala Harris, vice eleita dos Estados Unidos, durante discurso em Delaware. Crédito: Lawrence Jackson

Kamala Harris, a vice-presidenta eleita nos Estados Unidos, representa várias faces do país em uma só pessoa. Ela será a primeira mulher a ocupar o cargo na história, mas não é só isso; ela também é negra e filha de imigrantes. Num país que vê um aumento exponencial da ideologia da supremacia branca e da alternativa-direita (alt-right), a chegada de Kamala ao poder é uma grande vitória!

O supremacismo branco é uma ideologia que fascina grande parcela da população americana e tem como fundamento uma ideia antiga, já em voga no início do século passado, baseado num potencial genético supostamente melhor do ser humano branco em relação a outros grupos raciais. Essa ideologia está por trás de grupos que apoiam o presidente Donald Trump, como o Proud Boys e o QAnon, dos quais o presidente se nega a afastar-se peremptoriamente.

Mas há ainda o grupo da chamada alternativa-direita que se mostra contrário ao multiculturalismo norte-americano e ao discurso politicamente correto, guiando-se por um radicalismo do exercício da liberdade para divulgar cotidianamente na internet discursos de ódio e fake news, por meio das lacunas deixadas pelas grandes empresas do Vale do Silício, como conta Andrew Marantz no seu livro "Anti-social: Online Extremists, Techno-Utopians, and the Hijacking of the American Conversation". À uma conclusão parecida com a de Marantz chega o documentário da Netflix "O Dilema das Redes", ou seja, o excesso de liberdade no uso dos meios de comunicação digital pode ser um problema para a democracia e para o bem estar do ser humano.

A origem de Kamala Harris certamente é um dos alvos de ataque tanto da ideologia supremacista branca como da alternativa-direita, o fato de ela ser imigrante e negra, criada por uma mulher ativista de direitos humanos, aflora o argumento preconceituoso e misógino nesses grupos, hoje em dia já chamados por lá de milícias virtuais. As milícias virtuais exploram as lacunas deixadas por sistemas como o FacebookInstagramTwitter WhatsApp para espalhar fake news em forma de teorias da conspiração.

Assim, a mesma ideologia supremacista que movimentou o ódio contra os judeus, homossexuais e comunistas nos momentos antecedentes à II Grande Guerra facilitando o caminho para a chegada de Hitler ao poder na Alemanha, ganha uma repaginada na Era da Internet e se espalha novamente para fazer dos negros, estrangeiros, muçulmanos, LGBTQI+ , o alvo de ataques virtuais.

Por tudo isso, a vitória de Kamala Harris é tão representativa e tão especial! Mais do que a vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais norte-americanas, a sua vice-presidenta é muito simbólica para o momento atual em que vivemos não só nos EUA, mas em todo mundo. Isso porque, não se pode negar, que a política mundial é influenciada e pautada pelo líder da maior economia do planeta, por mais que outras lideranças tentem se opor aos ditames dos Estados Unidos.

Desde a chegada de Donald Trump ao poder, por meio das eleições de 2016, vimos crescer em outros países do mundo esse mesmo formato de milícias digitais pautadas também na ideologia supremacista branca e/ou numa direita radical. Países como a Hungria, que já vinham antes mesmo de Trump num curso de radicalização da política eugenista, sentiram-se fortificados pela retórica do presidente norte-americano. Políticos como Jair Bolsonaro, no Brasil, fizeram questão de se apoiar no modelo trumpista, para vencer as eleições aqui.

A virada democrática que foi a eleição de Biden e Harris para a presidência norte-americana, pode representar também o retorno de uma política mundial mais inclusiva e menos restritiva de direitos humanos. E como eu disse acima, não somente por conta da forma de política que o Partido Democrata de Biden defende, mas em razão mesmo do simbolismo de se chegar ao poder com uma mulher, filha de imigrantes e negra.

Uma imagem diz mais que mil palavras, por isso é tão importante a vitória de Kamala. E é essa imagem, de Kamala Harris, a nova vice-presidenta eleita nos EUA que queremos que chegue às jovens mulheres brasileiras, para que a esperança de uma política mais justa e mais inclusiva volte a nos inspirar no dia a dia, para que já agora nas eleições do próximo domingo nós mulheres votemos em mulheres, em mulheres negras, em representantes da comunidade LGBTQI+, em todas as minorias que Kamala com a sua imagem representa e inspira.

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