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Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes e da ANDHEP

O que a chacina em Vitória tem a ver com nosso egoísmo na pandemia?

Que os olhares daqueles jovens negros poucos segundos de serem mortos nos venham à mente todas as vezes que pensarmos em não usar máscara, em não respeitar as regras, em viver a nossa vida como se fôssemos melhores que outros

Publicado em 30/09/2020 às 05h01
Chacina na ilha: vídeo mostra grupo momentos antes de ser executado
Chacina na ilha: vídeo mostra grupo momentos antes de ser executado. Crédito: Reprodução

Uma coisa me chamou atenção ontem: o olhar daqueles quatro rapazes que sendo filmados por um celular sabiam que seriam assassinados logo em seguida. Cada olhar representa um ser humano, cada tiro uma vida perdida, por trás de cada vida uma família, um lar dilacerado, o coração de um pai e uma mãe em prantos.

Há alguns dias, eu havia escrito aqui que estávamos acostumados a ver chacinas de meninos no Brasil durante da década de 1980, quando grupos armados, paramilitares, colocavam fim a vidas de crianças em situação de rua. Escrevia, então, que essas cenas não eram mais vistas tão comumente. Ledo engano o meu!

Desde a divulgação da notícia sobre a chacina na Ilha em Santo Antonio, na cidade de Vitória, tenho ouvido comentários de pessoas nas ruas, a maioria deles no sentido de que os mortos eram “bandidos”, que “mereciam morrer”, que as leis no Brasil não são severas o suficiente para manter os “bandidos na cadeia”. Até mesmo dentro do meu círculo de convívio mais próximo não vi ninguém olhar aquelas pessoas mortas como um ser humano em si mesmo, uma vida que pelo simples fato de ser humana merecia ser preservada a qualquer custo, já que, afinal, toda vida humana é digna.

Eu não, eu continuei olhando, rememorando aqueles olhares, um por um mirando a câmera do celular que os filmava já condenados a morrer num julgamento sumário feito ali mesmo pelos seus inimigos na Ilha. A perversidade da situação é tão grande que no mesmo lugar estão os juízes, os cinegrafistas e os executores da pena, lado a lado com os acusados/executados, sem ninguém nem pensar em garantir o devido processo legal.

Fico aqui me perguntando se desde o início da pandemia de Covid-19 não teríamos nos tornado mais egoístas, mais insensíveis, mais violentos? O descaso com a vida humana fica evidente em cada conduta, em cada agir que vimos durante esses dias. Outro dia, vi no supermercado um senhor que se recusava a colocar a máscara e brigava com o segurança que insistia para que ele subisse com a máscara do queixo para a boca e o nariz.

Neste final de semana, vi as praias em Vila Velha lotadas, um bem pertinho do outro, o Morro do Moreno lotado, todos juntos e separados, cada um “na sua” como se não pairasse sobre nós esta nuvem de vírus altamente contagioso. E não duvido que ali no meio havia pessoas que sabiam que podiam estar contaminadas com o Covid-19 e que estariam passando o vírus para os outros.

O que está acontecendo? Será que perdemos a nossa humanidade? Não acho que deixamos de ser humanos como algumas pessoas têm falado, acho que desde março deste ano – com a declaração de estado de pandemia mundial pela OMS – passamos a graduar vidas humanas mais dignas de serem vividas do que outras.

Num cálculo utilitarista, elencamos algumas atividades essenciais para a manutenção da vida humana no planeta e estabelecemos aqueles que deveriam sair de casa para trabalhar para aqueles que ficariam em casa por um período de afastamento social. Enfermeiras, motoristas de ônibus, médicos, faxineiras, frentistas de postos de gasolina, caixas e repositores de supermercados  foram obrigados a saírem de casa, deixarem suas famílias e trabalharem na frente de batalha contra o vírus enquanto nós nos protegíamos do vírus em casa.

Agora são os professores de escolas públicas e particulares que vão para a guerra em nosso nome, porque nossas crianças não podem mais ficar em casa. Já são sete meses num isolamento social que vem prejudicando a educação e o desenvolvimento social da nova geração, sem falar dos danos psicológicos decorrentes de uma espécie de alienação social causada pela falta de contato com outras crianças e jovens para o devido intercâmbio cultural e emocional.

O homo sapiens, ser gregário e social por excelência, única espécie na face da terra que segundo o autor Yuval Harari sobreviveu às adversidades do planeta justamente pela capacidade que tem de se unir e conviver em sociedade, não sobreviverá por mais tempo em isolamento social. Já estamos mais doentes, mais egoístas, mais vaidosos e mais deprimidos porque estamos isolados, precisamos pensar em formas graduais de retomada do novo normal. Para isso é preciso um esforço coletivo em respeito às normas de uso de máscaras, higienização, manutenção de distância e, acima de tudo, de solidariedade e amor ao próximo.

Que os olhares daqueles jovens negros poucos segundos de serem mortos nos venham à mente todas as vezes que pensarmos em não usar máscara, em não respeitar as regras, em viver a nossa vida como se fôssemos melhores que outros. Que aqueles olhares tristes e resignados nos ajudem a lembrar da dor daqueles que são mortos a esmo, que têm as vidas ceifadas pelo simples fato de estarem vivos ou de terem nascido no lugar errado e daqueles que morreram pelo Covid-19 (e vão continuar morrendo, porque ainda não temos vacina). Que Deus tenha piedade de todos nós!

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