A maioria de nós provavelmente já ouviu falar de Mahatma Gandhi e sua luta pacífica pela independência da India, após mais de duzentos anos de domínio inglês. Sua morte, em 1948, por um extremista hindu ainda causa tristeza e indignação ao redor do mundo. Gandhi lutou com as armas do direito e do diálogo. Utilizando-se da doutrina da desobediência civil do direito inglês, uma espécie de resistência pacífica, Gandhi conseguiu mobilizar um grande número de adeptos ao redor de todo o país.
Mas mesmo o movimento de decolonização da Índia e a luta pacífica de Gandhi não impediram a partição do país em 1947, quando foi criado o Paquistão em um território incrustado no Nordeste da Índia para onde deveriam se mudar todos os muçulmanos. A ideia era criar um país para os muçulmanos e que o território da Índia ficasse para a maioria hindu.
Muito distante de acabar com o conflito, a partição entre os adeptos das duas religiões, como é conhecida a divisão entre Índia e Paquistão feita como último grande ato do governo inglês antes de deixar a colônia, passou a fomentar a disputa entre paquistaneses e indianos, além de iniciar uma outra disputa sobre o território da Caxemira.
A discriminação e o preconceito religioso são o pano de fundo da disputa atual entre Índia e Paquistão, mas também são o enredo que se desenvolve na nova série da Marvel, "Ms. Marvel". Baseada na história de vida de uma família paquistanesa que se muda para os Estados Unidos, a série traz uma heroína inusitada, muçulmana e orgulhosa de sua origem paquistanesa, mostra ao mundo um lado do país pouco conhecido: a cultura exuberante, alegria de viver e uma saudade nostálgica da vida antes da partição.
Muitos críticos já têm dito que é a melhor série da Marvel dos últimos tempos, sobre o que essa coluna realmente não pode opinar, mas com certeza é a série que reúne de forma surpreendente e respeitosa o debate sobre as duas grandes religiões da península indiana: o hinduísmo e o islamismo.
Ver uma adolescente descobrir a sua história e seus superpoderes no cenário fantástico da Karachi antiga, a cidade mais populosa do Paquistão hoje em dia e também o centro financeiro do país, emociona a todos que estão acostumados a ver nos filmes e séries da Marvel somente cidades do norte global, onde todas as coisas estão em seu lugar numa ordem falsamente estabelecida entre o bem e o mal.
A todos os fãs da Marvel e/ou aos adeptos da doutrina de vida de Gandhi, a nova série vem como uma lufada de novos ares, superando as narrativas dicotômicas entre o bem e o mal, quando o bem está representado sempre por um herói ocidental, que intrinsecamente representa os valores de uma civilização judaico-cristã.
Certamente, a série não retrata com total fidelidade todos os valores das cultura e religião muçulmanas, tampouco as disputas internas no Paquistão e Caxemira, mas com certeza é um ponto inicial de inflexão sobre as narrativas que estamos acostumados a ver nas telas de cinema e TV.
Se você ainda não assistiu, veja se consegue um tempinho para assistir à "Ms. Marvel" e tirar as suas próprias conclusões. Esta coluna ficará bem feliz em saber a sua opinião, escreva pra gente!